terça-feira, dezembro 19, 2006

A inocência do amor - Silvia Curiati

As onze badaladas surdas cortando o breu da noite foram o sinal para que ele saísse sorrateiro, deixando um rastro de adrenalina que fez Milu levantar a cabeça e farejar as intenções de seu dono.

Era a melhor hora do dia para boiar. Brisa fria, água fria, terra fria. O conjunto dava-lhe a sensação de que sua cabeça e seu coração esfriavam um pouco também.

Tirou a roupa e mergulhou abrindo os olhos, como se buscasse estrelas tocando o chão. Subiu de volta e apontou o umbigo para a lua, fechando os olhos para não cair à tentação de fazer um pedido a uma estrela cadente que insistisse em atravessar o seu caminho. Sabia o que pediria, e também sabia que era impossível sua realização. Profilaxia: enquanto não conseguisse pensar em outra coisa, não olharia mais para o céu.

A água não o abraçava porque ninguém mais o fazia. Ela o carregava como mãos desconhecidas, se aquele fosse o corpo de um herói.

Ele lembrou-se de quando era criança pedindo uma menininha da escola em namoro, esperando sua resposta por uma semana. Queria reviver aquela sensação de tranqüilidade e desprendimento. Esperou por sete dias sem cogitar sequer uma vez se a menina aceitaria ou não. Tudo era mais importante: o campeonato de futebol de salão, a prova de ciências, a ida ao Playcenter no sábado. Difícil resgatar a inocência do amor infantil.

Podia jurar que a água ao redor de seu corpo esquentava, quase formando bolhas. Pensou, sem querer, no rosto desta outra menina que o assombrava há meses. Abriu os olhos e empurrou seu corpo para o fundo d'água, pulmões vazios, tentando eliminar toda a oxigenação que tornasse possível a formação de uma imagem nítida em sua mente. Foram 6 minutos.

Nadou até a margem, saiu e caminhou nu, sem secar-se, plantando-se debaixo de uma árvore o resto da noite. Esgotar o pensamento lhe daria dores na cabeça e o libertaria. Doeu, tinha razão.

Voltou à casa seis horas depois, agarrando com firmeza as rédeas de um cavalo que havia desaparecido. Calçou um par de pantufas e foi tomar um copo de leite, brindando consigo sua nova vida.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

"Parerga e Paraleponema" no "Diário do Nordeste"


Já na sua terceira aparição na mídia escrita, o "Parerga e Pareleponema" foi indicado mais uma vez como um blog de divercidade. No site do jornal Diário do Nordeste, na coluna "Pop Up" podemos conferir o pequeno texto em que o nome do blog é definido como "estranhíssimo". Para os que viram a matéria e apareceram por aqui para me agradecer ou parabenizar, obrigado. Aos curiosos, o nome do blog vem do título de um livro de um autor muito citado por aqui, Arthur Schopenhauer, filósofo alemão (1788-1860), e significa "discurssões e refurtações". Como me proponho a discurssão e as n refurtações já demosntradas na história desse blog, é explicado seu sentido. Meu objetivo é único, ter "mais uma forma de expressão, sem pretensões e nada mais...". Tudo ou nada disso!

Republicação: Dance Monkeys, Dance

Música: Final Fantasy Piano

terça-feira, dezembro 12, 2006

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Rave: Um ritual tribal contemporâneo - Carolina Borges

Rituais tribais existem desde os primórdios da humanidade. As sociedades tribais arcaicas utilizavam os rituais como forma sagrada de conexão com a natureza e seus deuses. Através de danças coletivas, música repetitiva, ervas para abertura da percepção, entre outros ritos, os povos tribais celebravam e se conectavam com os aspectos transcendentais da vida. A vida pulsando em Gaia.

Quando o ponto de conexão e sociabilidade entre os seres humanos se dá através da ressonância de afetos, da similaridade do modo de experimentar e vivenciar a vida, estamos diante de uma tribo; na medida em que a intenção da convivência é genuína e não imposta por alguma lei.

A história da civilização, a formação dos estados, a industrialização, e todas as leis e instituições hierárquicas – religiosa, política, econômica - aos poucos foram eliminando os aspectos tribais das relações, através da domesticação, catequização, e imposição de valores e verdades a fim de beneficiar as instâncias de poder e comando.

De selvagens, tribais e guerreiros, os habitantes de Gaia transformaram-se em um grande e maciço rebanho de ovelhas. Vidas foram sugadas através das leis, instituições e a imposição de um tempo artificial, a fim de homogeneizar as vidas do rebanho e conseqüentemente facilitar o controle do poder.

A natureza foi perdendo sua soberania, os próprios humanos que antes à veneravam, começaram a destruí-la e explorá-la. Os rituais deixaram de ser tribais e pagãos, dando origem a celebrações religiosas institucionalizadas de caráter transcendental, na qual a desvalorização do corpo e da vida telúrica, transformaram-se em realidade. O rebanho agora não celebra a vida, e sim, a “vida além da vida”. Com o fim dos rituais e celebrações tribais, deu-se início a era das celebrações mórbidas conduzidas por ideais acéticos.

Final do século XX, a humanidade chegando ao seu limite de artificialidade - através do desenvolvimento tecnológico, da ausência de relação com a natureza de Gaia, do rebanho/homem sendo conduzido por valores competitivos e progressistas - dá um “salto quântico em ondas espirais”, com o surgimento no final da década de 80 na Inglaterra das primeiras raves.

Com grande semelhança às cerimônias indígenas religiosas dos índios norte americanos Pow wows, tem-se início o retorno do sentido tribal e transcendental através da música eletrônica e a sua estrutura repetitiva – remetendo aos sons tribais produzidos durantes os rituais – o DJ como um xamã, conduzindo o êxtase e a vibração. A volta do paganismo e seu aspecto hedonista, na medida em que as relações entre os freqüentadores estão além de controles e comandos institucionais.

O ciberespaço como superfície de afeto e trocas de informações entre os ravers, Gaia pulsando com os fluxos de informações e conexões de seus habitantes.

Este ritual contemporâneo evidencia a transformação sem precedentes que vivenciamos, pois se trata de um ritual tribal planetário gerado somente e através da tecnologia, possuindo características idênticas em qualquer região de Gaia. Cidades nômades são formadas - em lugares onde há predominância da natureza - por alguns dias e vidas compartilhadas durante este ritual. Estamos diante de um forma de zona autônoma temporária (TAZ), evidenciando o aspecto anárquico e caótico que as raves apresentam, por tratarem de encontros e trocas de afetos sem controles e leis.

Eis a tecnologia proporcionando um retorno ao arcaico. Habitantes de Gaia retornam às suas condições de selvagens, assim como a natureza recupera seu aspecto soberano. Embora em lugares naturais e selvagens, as raves possuem a artificialidade em sua essência, visto que é a tecnologia o elemento que viabiliza este ritual.

É através do ciberespaço que as trocas de informações, como detalhes de horas e locais são realizados. A música é eletrônica, produzida através de softwares, as imagens projetadas são criadas também através de softwares, a importância da estética do corpo, a substancia psycoativa (MDMA) para estímulo e abertura da percepção é sintética e produzida em laboratórios, tudo isso gerando um ritual pós-moderno de alguns dias, onde os habitantes de Gaia dançam e celebram coletivamente. O retorno do arcaico, na medida em que os principais aspectos dos rituais tribais ficam evidenciados.

Consumo excessivo de substancias psycoativas, apropriação da rave como produto de consumo e alienação, coexistem com o movimento refletindo a atual sociedade que habita Gaia. Assim como os rituais tribais arcaicos refletiam cada tribo, a rave sendo o ritual tribal contemporâneo vai refletir a atual sociedade planetária. Impossível falar da atual sociedade sem falar de excesso de consumismo.

Rave como levante, zona autônoma temporária de sociabilidade humana, linha de fuga, subversão, anarquismo caótico, nomadismo, tribo, coletividade, festejo, celebração, paganismo, xamanismo, desterritorialidade, ritual. A era pós-moderna de Gaia e o surgimento do neo tribalismo.

"A TAZ envolve um crescimento do manso para o selvagem, um retorno que é, igualmente, um passo a frente. Uma lógica do caos, um projeto de elevados ordenamentos de consciência ou simplicidade de vida que se aproxima em um surfar nas ondas dianteiras do caos, de um complexo dinamismo. A TAZ é uma arte de vida em contínuo surgimento, selvagem, mas gentil...”


A última lágrima do desespero humano



“Deus é uma lágrima de amor derramada o mais profundo segredo sobre a miséria humana” - Feuerbach

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Aos que vierem depois de nós - Bertolt Brecht

Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
[(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.


Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

Um simples almoço de domingo - Silvia Curiati

Foi comprar o almoço de domingo com seu pai, e voltou diferente.
A mãe queria uma saladinha leve, a irmã um x-maionese. Anita, como sempre, pediria uma porção de fritas enquanto jogava palitinho com seu pai, esperando os pratos ficarem prontos.

Saíram de casa às 13:10, caminharam por 3 minutos em direção à lanchonete e entraram. Pediram a comida, esperaram precisamente 17 minutos, pagaram e saíram do local, com os pacotes cheirando gostoso.

Foi quando olharam para o céu e viram uma coisa estranha movendo-se por entre nuvens escuras demais. Pararam e ficaram admirando o OVNI, tentando eliminar as duas últimas letras desta sigla misteriosa. "Deve ser um helicóptero", "não, eles não voam assim... um balão, talvez?" "hum, acho difícil."

Chegaram em casa às 17:34, como se nada houvesse acontecido. A mãe e a irmã estavam desesperadas, de fome e susto. O pai e Anita juravam não ter demorado mais que os 23 minutos de sempre, talvez 25 contando com a parada para admirar o céu.

O fato é que a comida estava fria, a salada um tanto murcha.
E Anita até hoje apita ao passar em qualquer detector de metais, mesmo que esteja nua.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Se Fossemos Infinitos - Bertolt Brecht



Se Fossemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.

quarta-feira, novembro 29, 2006

O quê é religião? - Rubem Alves

"Vivemos em uma guerra permanente com nós mesmo. Somos incapazes de ser felizes. Não somos o que desejamos ser. O que desejamos ser jaz oprimido... E é justamente aí, diria Feuerbach, que se encontra a essência do que somos. Somos o nosso desejo, desejo que não pode florescer. Mas, o pior de tudo, como Freud observa, é que nem sequer temos consciência do que desejamos. Não sabemos o que queremos ser. Não sabemos o que desejamos porque o desejo, reprimido, foi forçado a habitar as regiões do esquecimento. Tornou-se inconsciente.
Acontece que o desejo é indestrutível. E lá, do esquecimento em que se encontra, ele não cessa de enviar mensagens cifradas - para que seus captores não as entendam. E elas aparecem como sintomas neuróticos, com os lapsos e equívocos, como sonhos... Os sonhos são a voz do desejo. Aqui nasce a religião, como mensagem do desejo, expressão de nostalgia, esperaça de prazer..."

domingo, novembro 26, 2006

Sabemos demais - Roberto Damatta

Dedico esta meditação aos que baniram do seu mundo o “eu não sei” e o conseqüente reconhecimento da ignorância que faz o mundo avançar. Impressiona-me o fato de jamais ter ouvido de nenhum homem público um trivial e humano “isso eu não sei”. Penso que os caras devem ser muito preparados, mas daí vem a perplexidade: se eles sabem tudo, se conhecem demais todos os problemas, por que então nada é resolvido?
Olhando a movimentação dos poderosos confirmados ou recém-inaugurados pelas urnas, esses que ontem sabiam tudo do mundo e do Brasil, estou convencido de que um dos maiores paradoxos brasileiros é o saber demais. É ter um conhecimento quase imoral de todos os problemas e, não obstante toda essa sabedoria, não resolver p@##a nenhuma. Talvez esse “saber demais” seja uma maldição pós-moderna: o saber tudo nos leva a não fazer nada.
De onde vem esse “saber demais”? Quais as suas marcas? A primeira é a sua associação a uma visão de mundo avessa, alérgica e distanciada do resultado ou da prática. Antigamente chamava-se “bacharelesco” esse tipo de conhecimento que passava pelas lombadas dos livros e pelos nomes dos autores, deixando de lado suas aplicações, contextos, resultados e, sobretudo, limites. O floreado sendo mais básico do que o argumento e a crítica. Suas implicações práticas jamais eram vistas, pois não seria - como ainda não é - de bom tom cobrar pragmatismo dos sábios, sobretudo quando eles acumulam sapiência com o poder de nomear, conceder ou exonerar, por exemplo.
A segunda característica desse “saber tudo” é a idéia de que a realidade pode ser conhecida à exaustão. Que os fatos da natureza e da vida social podem ser esgotados na sua lógica, dinâmica e essência. Que existem realmente teorias que respondem a todas as questões, dirimindo todas as dúvidas, porque as únicas questões possíveis são aquelas formuladas pelos sábios que conhecemos, lemos e admiramos. Pior que isso, que existem pessoas que “sabem tudo” e, por isso, são as mais adequadas para nos governar.
Há uma correlação entre “saber demais” e elites pequenas, densas hiperconscientes, ignorantes e sovinas. Em toda sociedade hierarquizada, o saber é mais um recurso na manutenção dos seus círculos de poder. Para “subir” é preciso saber o caminho das pedras. Deve-se conhecer as pessoas certas ou estar no partido adequado para ser reconhecido. Não é fácil entrar no clube dos afortunados que rompem o duro cerco do anonimato e chegam ao “nirvana social”. O patamar dos que não pensam mais em usar nenhuma versão do “Você sabe com quem está falando?”.
Sendo parte da casta das “unanimidades nacionais”, esses brâmanes formam, como ocorre entre os Bruzundangas de Lima Barreto, o círculo dos que “sabem tudo”. Dos que tudo podem dizer e, melhor que isso, dos que nada precisam fazer ou prestar contas. Nesses sistemas, o brilho engloba a integridade.
O exato oposto acontece nos sistemas igualitários, nos quais cada segmento (ou, se quiserem, classe social) tem o seu saber. Tem sua visão de mundo que está, como as pessoas, em conflito e disputa com as outras. Cansei de ouvir, nos Estados Unidos e na velha Inglaterra, a expressão “o seu ponto contra o meu”, significando a sua perspectiva, sua visada das coisas, seu conhecimento do problema.
Essas são as sociedades com professores e sábios, mas sem sabichões. Sistemas nos quais o conhecimento disso ou daquilo - do crescimento econômico, da segurança pública, da educação, da imprensa, dos livros, etc. - passa por muitos, democrática e igualitariamente. Essas são as sociedades com muitos recomeços, experiências e revoluções. Aqui temos muitos pontos de vista, o que conduz a uma visão crítica dessa crença numa sabedoria essencial, típica de sistemas em que educação significa primordialmente pose, falar difícil e boas maneiras, não a ausência de ignorância.
Credos mínimos estruturam essas culturas. Por exemplo: o “First come, first serve” (quem primeiro chega, primeiro é atendido) é um dos princípios fundamentais do igualitarismo moderno que ainda não precisou de “regulamentação” por nenhum jurista de fala enrolada e de linguagem criptográfica, com o fito de limitá-lo às elites.
O problema das sociedades dos que sabem demais é a sua aversão às aplicações práticas; o famoso teste de comer o pudim que eventualmente limita as teorias. O resultado, estamos todos fartos de testemunhar, é que sabemos tudo o que deve ser feito, mas as soluções - despoluir a baía, acabar com uma polícia parada, lidar com menos preconceito contra o nosso racismo, desregular onde é preciso para regular firmemente onde é necessário e, mais que isso, aplicar, decidir, resolver, prender e punir - são teorias. E em política, a teoria pura é quase sempre desesperança e utopia.
Tudo se passa como se o nosso fado fosse o de saber tudo e não fazer nada; ao passo que onde não se sabe experimenta-se, subordinando o saber ao teste, pois somente assim a teoria se transforma num meio de resolver questões. Mas como compensação para toda essa sabedoria.

link: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=383604

Filosofia - Chico Buarque

O mundo me condena
E ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber
Se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome.

Mas a filosofia
Hoje me auxilia
A viver indiferente assim.
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Para ninguém zombar de mim.

Não me incomodo
Que você me diga
Que a sociedade
É minha inimiga.
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba
Muito embora vagabundo.

Quanto a você
Da aristocracia
Que tem dinheiro
Mas não compra alegria
Há de viver eternamente
Sendo escrava desta gente
Que cultiva hipocrisia.

terça-feira, novembro 14, 2006

Klav Kalash

Receta en español del Klav Kalash:

Duración: 30 min
Para 4 personas (seguro que nadie lo prueba)

Ingredientes:
600 gr de carne de carnero
600 gr de carne de cordero
4 tomates
3 pimientos
media cebolla grande (o 1 pequeña pero seguiremos la transcripción literal)
agua
aceite
sal
pimienta
otros condimentos al gusto de cada uno
palo (no bol, palo, palo)
salsa de cangrejo de mar (para beber le va bien el jugo de cangrejo, no de montaña)

Preparación:
Cortar la carne en pequeños tacos, los pimientos y la cebolla en pequeñas tiras y machacar los tomates.
Poner (o hacer, es que ese verbo tiene dos significados) todos esos ingredientes en una olla, sazonarlo con especies fuertes y añadir algo de agua. Entonces mezclar y presionar la masa hasta formar una gran bola (de beisbol, de tenis o de lo que te de la gana).
Esta bola se cubrirá de aceite y se asará en una parrilla o en una sartén (hay quien puede construirse su propio horno de piedra si lo prefiere)
Cuando la bola esté en su punto (al dente), fijarla sobre un palo. Pringar (así sale en el diccionario) con la salsa de cangrejo. Au, bon profit.



segunda-feira, novembro 13, 2006

300




Sobre Esparta


"Este é meu escudo.
Em combate, eu o levo à minha frente,
mas ele não é só meu.
Protege o meu irmão à minha esquerda.
Protege minha cidade.
Nunca deixarei meu irmão
fora de sua proteção
nem minha cidade sem seu resguardo.
Morrerei com meu escudo em minha frente
enfrentando o inimigo"

domingo, novembro 12, 2006

Charlatanismo: A Parapsicologia - Alejandro J. Borgo

A parapsicologia é uma disciplina que se enquadra dentro das pseudociências. Tem a duvidosa honra de ser a única pseudociência experimental, embora – a rigor – seja difícil chamar de experimento um teste de parapsicologia. Os fenômenos parapsicológicos ou fenômenos “psi” foram arbitrariamente divididos em:
– Telepatia, ou captação do conteúdo mental de outra pessoa.
– Clarividência, ou captação extra-sensorial de um objeto ou acontecimento objetivo.
– Precognição, ou captação extra-sensorial de acontecimentos futuros.
– Psicocinese, ou influência da mente sobre a matéria.
Os três primeiros pertencem à mal chamada percepção extra-sensorial, e o último engloba o grupo de fenômenos “físicos”. A parapsicologia concebe a mente como uma entidade separada do corpo e, em alguns casos, os parapsicólogos afirmam que os fenômenos não pertencem ao âmbito do mental, pondo a “psi” em um nível que estaria “mais além do psíquico ou mental”. Os fenômenos psi seriam:
a) independentes do espaço e do tempo;
b) erráticos, ou seja, não se pode saber quando vão apresentar-se;
c) involuntários; e
d) inconscientes.
Vejamos:
a) Ao serem independentes do espaço e do tempo, violam várias leis físicas, mas os parapsicólogos – em vez de duvidar da existência de um fenômeno tão peculiar – sustentam que é preciso reformar toda a física para que psi possa ser explicada (quando nem sequer está demonstrado que exista).
b) Com a desculpa da erraticidade, os parapsicólogos podem explicar seus fracassos dizendo que “como é errático, o fenômeno desta vez não se apresentou”. Quando obtém um resultado positivo dizem “desta vez se apresentou”. Isto é equivalente a afirmar que um remédio para a dor de cabeça deu resultado depois que a dor passou. Se a dor não passa, então se recorre à explicação seguinte: algo inibiu o efeito do remédio, a concentração dos componentes não era a correta, o paciente não estava predisposto, etc, etc.
c) Estes pretensos fenômenos não podem ser manejados à vontade, de maneira que não se pode propor a produção de um fenômeno a bel-prazer, em qualquer momento ou lugar. Esta vulgar desculpa é também freqüentemente usada pelos supostos “mentalistas”, “videntes”, etc., quando a colher não se dobra ou as cartas não se acertam.
d) Outra característica – dizem os parapsicólogos – é que os fenômenos psi são inconscientes. Não se sabe quando nem como se experimenta a telepatia ou a clarividência. Às vezes pode-se perceber algo extra-sensorialmente e “transformá-lo” em uma sensação de tristeza, alegria, dor, sem dar-se conta de que se trata de um fenômeno psi genuíno. Com o mesmo rigor podemos dizer que temos um dragão verde dentro de nossa cabeça, só que o dragão dá um jeito para desmaterializar-se cada vez que nos tiram uma radiografia ou se “transforma” em uma sensação de calor, ansiedade, etc, etc.
Como vemos, a parapsicologia ignora a física, a biologia, a psicologia científica e todo e qualquer conhecimento que provenha da ciência. Não possui uma teoria que explique satisfatoriamente como um ente imaterial (psi) pode interagir com um sistema material (o cérebro). Tentou-se correlacionar os fenômenos psi com diversos aspectos: a personalidade, a atitude crédula ou incrédula, os estados alterados da consciência, a idade, o sexo, e se utilizou uma grande gama de instrumentos para levar a cabo investigações delineadas para pôr à prova a hipótese da existência de psi.
Fica ridículo começar a correlacionar a psi com qualquer característica ou habilidade se ainda não se provou sequer sua própria existência. Por isso dizemos que a parapsicologia não faz experimentos propriamente ditos. Primeiro deveria provar que a variável crucial psi existe. De igual maneira poder-se-ia propor a existência dos duendes plutonianos, os quais são invisíveis, erráticos e independentes do espaço e do tempo e começar a correlacionar sua presença com o estado de ânimo das pessoas, a personalidade, etc., sem corroborar primeiro que realmente existam.
Pelo que se vê, a parapsicologia está longe de transformar-se em uma ciência, apesar de que os parapsicólogos falam de “parapsicologia científica” ou “nova ciência”. Mais de 100 anos de pesquisas não conseguiram provar um só fenômeno psi. Foram feitos testes com animais, com plantas, com material subatômico, com cartas, desenhos, estados alterados de consciência, drogas, etc. Foram publicados experimentos assombrosos, mas quando se tentou repeti-los, o resultado foi o fracasso, com as conseqüentes desculpas pseudoexplicativas. As mais prestigiosas revistas dedicadas à parapsicologia deveriam publicar os milhares e milhares de testes que produziram resultados negativos para a hipótese psi.
Tendo em conta as objeções precedentes, devemos agregar a fraude, seja ela por parte dos investigadores ou pelos sujeitos “dotados” ou “sensitivos” que fazem trapaça durante os experimentos. Vários ilusionistas peritos têm recomendado que um mágico experimentado se encontre presente quando se faz uma investigação com sujeitos como o famoso Uri Geller, tão propensos à fraude. E o panorama desalentador se completa mencionando os delineamentos experimentais defeituosos, as análises estatísticas errôneas e outras falhas do gênero.
Antes de afirmar que psi existe, os parapsicólogos deveriam resolver certos aspectos cruciais e ainda pendentes de definição. Perguntas sem resposta:
– O que é “energia psíquica”?
– O que é psi?
– Por que psi é errática?
– Como sabemos que psi é inconsciente?
– Se psi não responde às leis naturais, a que leis responde?
– Se psi é errática e involuntária, por que há pessoas que parecem exercê-la à vontade em seus “consultórios profissionais”?
Fazendo um exame crítico e objetivo verificamos que não há provas nem sequer indícios a favor de psi, ou seja, da percepção extra-sensorial e da psicocinese. Para cúmulo, os parapsicólogos inventam novos termos para tratar de explicar o acaso. Exemplo: o que acontece quando uma pessoa acerta menos do que o esperado pelo acaso? Há percepção extra-sensorial negativa? Não. De maneira nenhuma. Preferem chamá-la “psi-missing” (perda de psi). Os mais audazes propõem que a pessoa nega inconscientemente o fenômeno e produz resultados inferiores ao esperado pelo acaso. Este é um procedimento típico da pseudociência.
Resumindo:
– Não há base experimental.
– Os resultados positivos são irrepetíveis.
– Tem sido detectada fraude em proporção alarmante.
– Tem se observado delineamentos experimentais defeituosos.
– Tem se descoberto análises estatísticas errôneas.
– Há uma incômoda maioria de resultados negativos (sem publicar).
– Há mais de 100 anos de pesquisas.
– As definições são vagas.
– Não existem hipóteses nem teorias explicativas.

Será preciso adicionar algo mais para percebermos que a parapsicologia é uma pseudociência?

A Batalha das Termópilas - Jacques-Louis David

terça-feira, novembro 07, 2006

Filme: Camisa de Força

Após recuperar-se de um tiro na cabeça, Jack Starks (Adrien Brody), um veterano da Guerra do Golfo, retorna à cidade natal sofrendo de amnésia. Quando é acusado de ter assassinado um policial, é recolhido num hospital psiquiátrico, onde um médico, Dr. Becker (Kris Kristofferson), o submete a um controverso tratamento, no qual é injetado no paciente drogas experimentais. Starcks é imobilizado numa camisa de força e trancafiado, por períodos longos, em uma gaveta para cadáveres, no sótão de um necrotério. A mente de Starks, drogada e desorientada, o transporta ao futuro, onde ele conhece Jackie (Keira Knightley), e descobre que está fadado a morrer em quatro dias. Juntos, eles buscam uma maneira de livrá-lo de seu trágico destino.


(clique aqui e assista ao trailer)



Os peixinhos de Felipe - Silvia Curiati

Felipe era um menino do bem, muito gente-boa. Ganhou um aquário quando completou 9 anos de idade. Enorme, daqueles que enchem os olhos, cheios de peixinhos coloridos de nomes estranhamente científicos.
Se apaixonou tanto pelo presente que todos os dias, durante aquele ano, passava as tardes numa loja de peixes estudando nadadeiras e movimentos, nomes e formas.

O dono do lugar, vendo isso, lhe ofereceu um emprego. Seria mais proveitoso do que tê-lo ali, à toa, zanzando pelos aquários como uma alma penada. E já que era um menino tão simpático, gente-boa, não haveria mal nenhum.

Felipe, então, trabalhava meio período. Ganhava em espécie. Um peixinho por mês.

Começou a achar que saía em desvantagem, já que um único peixinho não passava do preço de um saquinho de balas Chita. Ponderando a reclamação do funcionário-mirim, o patrão olhou Felipe nos olhos e, entregando-lhe um saco com um peixe grande quase imóvel, disse que pela sua dedicação, aquele mês ganharia um peixe raro grávido. Assim mesmo, peixe raro grávido. Era único na loja.

Não pareceu uma boa negociação ao menino, que entendeu ter de esperar mais um tempo para enxergar o tamanho real de seu salário.
Dias depois foi surpreendido com remuneração equivalente a 8 meses de trabalho. Com sua precoce visão para os negócios, pediu demissão e armou uma barraquinha em frente à sua casa, onde vendeu todos os 8 filhotes a um preço um pouco superior ao da concorrência, já que eram de espécie rara e não havia outros iguais na vizinhança. Claro, todos compravam de Felipe, não só por sua lábia de vendedor mas por ele ser um cara legal mesmo.

Com o dinheiro, comprou outros peixes grávidos com pinta de raros e montou um pequeno negócio, que lhe rendeu um lucro interessante em poucos meses.

Anos depois, fundou o primeiro Aquário de sua cidade, e para que a fórmula de sucesso fosse mantida, começou a provocar cruzamento de peixes com as mais diversas espécies animais, assim teria peixes raros e grávidos garantindo a longevidade do negócio. Foi preso acusado de práticas ilícitas de mutação gênica e terminou seus dias numa cadeia, perto do porto, cheirando a peixe, apesar de continuar sendo do bem e muito, muito gente-boa.

"Seamos realistas y hagamos lo imposible"


Che

segunda-feira, novembro 06, 2006

A Náusea - Jean-Paul Sartre,

"Por exemplo, essa espécie de ruminação dolorosa: existo - sou eu que a alimento. Eu. O corpo vive sozinho, uma vez que começou a viver. Mas o pensamento, sou eu que o continuo, que o desenvolvo. Existo. Penso que existo. Oh! Que serpentina comprida esse sentimento de existir - e eu a desenrolo muito lentamente... Se pudesse me impedir de pensar! Tenho, consigo: parece-me que minha cabeça se enche de fumaça, e eis que tudo recomeça: ‘Fumaça... não pensar... Não quero pensar... Penso que não quero pensar... Não devo pensar que não quero pensar. Porque isso também é um pensamento’. Será que não termina nunca?
Meu pensamento sou eu: eis por que posso parar. Existo porque penso... e não posso me impedir de pensar. Nesse exato momento - é terrível - se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio, a repugnância de existir são outras tantas maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência. Os pensamentos nascem por trás de mim como uma vertigem, sinto-os nascer atrás de minha cabeça... Se cedo, virão para frente, aqui entre meus olhos - e sempre cedo, o pensamento cresce, cresce e fica imenso, me enchendo por inteiro e renovando minha existência."


Exposição: !Mirabolante Miró





Vista por mais de 190 mil pesoas em Porto Alegre, onde fica o centro cultural do Santander Banespa, a exposição “!Mirabolante Miró”, em cartaz em Fortaleza, no Espaço Cultural Unifor, é uma boa dica para quem aprecia artes plásticas. Promovida pela Fundação Edson Queiroz / Universidade de Fortaleza, a mostra reúne 200 obras do artista catalão Joan Miró, um dos principais artistas do século XX, até 10 de dezembro. De terça a domingo, das 10h às 20h. Grátis

Os Sete Enforcados - Leônidas Andreiev

"'Isso é a morte? Que morte?' - pensa ela docemente. Se de todos os países viessem para a sua cela os sábios, os filósofos, os carrascos, se pussesem diante dela os livros, escapelos, machados e forcas, e começassem a gritar que a morte não existe, que o homem morre e não existe imortalidade, todos eles se espantariam. Como não existe imortalidade, quando ela já era imortal? De que outra imortalidade, de que outra morte se poderia falar, quando ela já está morta e igualmente imortal, viva dentro da morte, como se fosse viva dentro da vida? Se pussesem dentro de sua cela, enchendo-a com sua podridão, um ataúde com o seu próprio cadáver putrefato, e dissessem: 'Olha! És tu!', ela olharia, respondendo: 'Não! Não sou eu.'"

quarta-feira, novembro 01, 2006

Reflexões de um motorista - Silvia Curiati

Eu caminhava a passos firmes em direção ao estacionamento. Já tinha andando uma quadra e meia, ainda faltava a segunda metade, cruzar uma avenida de duas mãos e seguir por mais um quarteirão.

Não era tarde, umas oito, oito e meia da noite. Claro, esta informação depende de um referencial. Levando-se em conta que eu deveria ter deixado o hotel às cinco, no máximo com vinte minutos de atraso, era bastante tarde, sim.

Meus olhos ainda estavam embaçados, um pouco pelo astigmatismo incurável e avesso aos óculos de grau, e muito pelas emoções que insistiam em brotar, descontroladas, no estado líquido.

Assim mesmo, sei bem o que vi: ele vinha de costas. Caminhava em marcha-ré, na minha direção. Veloz, decidido. Só não juro que havia um par de olhos vermelhos em sua nuca porque posso estar cometendo um grande engano - o semáforo da avenida obrigava os carros a parar, e de novo, as emoções...

O fato é que ele veio. E as luzinhas vermelhas (existentes ou não) me confirmavam que vinha de costas. Esbarrou em mim intencionalmente e com força, dizendo, bastante incomodado com o fato de eu estar no meio do seu caminho, que eu deveria pensar em continuar no sentido oposto, já que a vida segue em frente, nem de lado, nem de costas.

domingo, outubro 08, 2006

Filme: Os 300 de Esparta

(Clique aqui e assista ao trailer da celebrada mini-série de Frank Miller sobre os espartanos que enfrentaram os persas na Batalha de Thermopylae. Direção: Zack Snyder (Madrugada dos Mortos)

A paixão secreta de Joel - Silvia Curiati

Era sempre no mesmo horário, no mesmo local. Joel passava de carro e via sua paixão loira, rosto angelical, esperando o ônibus.

Linda, cabelos invariavelmente presos na nuca, calça jeans, camiseta. O ideal de simplicidade, e ainda assim reluzia. Pele branca, olhos castanhos, mal se via a sobrancelha, de tão clara.

Carregava sempre uma mochila surrada e muitos cadernos. Ainda não tinha conseguido identificar se estava na escola, no cursinho, na faculdade. Definitivamente o rosto era de pupila. Não parecia de uma inteligência ofensiva, apenas alguém que conseguia manter-se na média, como ele próprio se definia.

Um dia resolveu seguí-la. Ou melhor, seguir o ônibus. Ela desceu apenas 20 minutos depois, na avenida Paulista. Observou-a mais um pouco e partiu, dando curso ao seu dia.

Mas o acaso às vezes dá uma mãozinha aos apaixonados. Numa daquelas manhãs, na tentativa desesperada de fugir da chuva, a menina, impaciente e ensopada, bateu na janela do carro de Joel, que estava parado em frente ao ponto do ônibus atrasado. Ele, com o olhar perdido e a fala completamente atrasada pelo susto, abriu a porta e pediu que entrasse.

Não deixou que ela dissesse nada e imediatamente levou-a à avenida de todos os dias.

Calada, ela desceu do carro e sorriu. Ele, vendo-a correr para os braços de um desconhecido, partiu triste, zerando o taxímetro e tentando lavar o coração doente com a chuva ácida de São Paulo. Levá-la ao seu destino eram os ossos do ofício.

Animação: Corrente pra frente








Vencedor do 1º Festival Livre de Animação na América Latina
clique aqui

A primeira página deles, pelo menos... -

Eis aqui mais um exemplo do quanto a internet pode nos entreter por horas e horas com os mais diversos badulaques. Como este site aqui, no Newseum.com, onde você pode ver a primeira página de centenas de jornais de grande circulação de todo o mundo.O site é atualizado todos os dias e, mesmo que você não saiba nem metade das línguas em que eles são escritos, serve como curiosidade para ao menos se "ler as figuras".É legal você pegar e ver, por exemplo, o que está na capa do An-Nahar do Líbano e depois ver o que está pegando na Islândia, com o Morgunbladid. Alguns dias atrás este último trazia várias fotos de gatos e um gêiser na capa, enquanto o jornal libanês mostrava casas destruídas e fotos de caras barbudos. Mundão louco esse aí, viu...
Fonte: http://www.fabricadequadrinhos.com.br/

À espera de alguém amado - Silvia Curiati

Esperava no escuro, em frente à van branca, todas as noites.
Sentado, paciente, calado em seu mundo ininteligível. Ela não o compreendia, e ele não sabia fazer-se compreender. Restava o silêncio e a espera.

Chovia fraco, frio, vagaroso. Do alto da ladeira ele só podia ver a luz tênue de um poste na esquina, transformando o halo branco em um pequeno arco-íris. O brilho d'água nos paralelepípedos criava desenhos intrigantes que o distraíam enquanto as horas passavam lentas.

A rua era uma curva, uma subida íngreme. O bom de esperá-la no topo, no ponto cego, era a sensação de que ela havia escalado uma montanha para alcançá-lo no cume. Era a surpresa em seu rosto. Surpresas sempre são alegres, ele imaginava.

Avistou a lanterna do carro iluminando a ladeira e colocou-se em posição de alerta. Correu, debaixo de chuva, em direção ao centro da rua. Os olhos úmidos não davam uma boa visibilidade do que vinha pela frente.
Só percebeu o calor dos faróis quando tocaram seu nariz. Voou. Não era ela. Não conhecia o motorista.

Mas sentiu-se brevemente amado quando, minutos depois, ela chegou e o recolheu da rua com uma manta, abraçando-o contra o corpo quente. Teve tempo de abanar o rabinho, mais nada.


domingo, setembro 17, 2006

Jeri 2006

sábado, setembro 16, 2006

Everybody's Changing - Keane

You say you wander your own land
But when I think about it
I don't see how you can

You're aching, you're breaking
And I can see the pain in your eyes
Says everybody's changing
And I don't know why

So little time
Try to understand that I'm
Trying to make a move just to stay in the game
I try to stay awake and remember my name
But everybody's changing and I don't feel the same

(instrumental)

You're gone from here
Soon you will disappear
Fading into beautiful light
'cause everybody's changing
And I don't feel right

So little time
Try to understand that I'm
Trying to make a move just to stay in the game
I try to stay awake and remember my name
But everybody's changing and I don't feel the same

(solo)

So little time
Try to understand that I'm
Trying to make a move just to stay in the game
I try to stay awake and remember my name
But everybody's changing and I don't feel the same

(clique aqui para conhecer a tradução desta música)

terça-feira, setembro 12, 2006

Blowing In The Wind - Bob Dylan

How many roads must a man walk down
Before you call him a man?
Yes, 'n' how many seas must a white dove sail
Before she sleeps in the sand?
Yes, 'n' how many times must the cannon balls fly
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.

How many times must a man look up
Before he can see the sky?
Yes, 'n' how many ears must one man have
Before he can hear people cry?
Yes, 'n' how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind.

How many years can a mountain exist
Before it's washed to the sea?
Yes, 'n' how many years can some people exist
Before they're allowed to be free?
Yes, 'n' how many times can a man turn his head
Pretending he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind,
The answer is blowin' in the wind. ]

Clique aqui para ver a tradução

Jeri 2006


"O desejo exprime-se por uma carícia, tal como o pensamento pela linguagem" - Sartre

O tatuador intérprete - Silvia Curiati

Era bom em transformar coisas intangíveis em desenhos, reduzia um sentimento vasto a alguns traços simples e firmes, eternizando-os nos corpos em forma de tatuagem.
Se alguém lhe pedisse uma estrela, um dragão, rapidamente ele recomendava um colega. Não era tatuador, era intérprete.
Pediram-lhe mais tempo. Ele deu um relógio de Dali escorrendo no ombro esquerdo.
Pediram-lhe fé. Ele pregou uma cruz de cabeça para baixo na parte interna do antebraço, emaranhada em rosas cheias de espinhos.
Pediram-lhe luz. Ele deu três pequenos vagalumes na região do cóccix.
Pediram-lhe vingança. Ele deu um ás de espadas na nuca.
Pediram-lhe liberdade. Ele deu asas em seus pés.
Pediram-lhe um caminho. Ele deu pegadas em toda a extensão da coluna.
Pediu-lhe seu amor. Ele deu apenas um beijo na boca e tatuou, em seu próprio peito, um buraco de fechadura, jogando em seguida todas as suas agulhas fora.

sábado, agosto 26, 2006

O Beijo - Auguste Rodin



" love is a four letter word"

Apenas mais uma separação comum - Silvia Curiati

Ele entrou na casa sem desviar o olhar para a pessoa que abria a porta. Passou como uma flecha e sentou-se no sofá, virando-se então em direção a ela, que vinha caminhando vagarosamente, como um take em slow-motion de um desfile de grife.

Estavam agora um de frente ao outro, olhos nos olhos.

"A mulher da minha vida", pensou, enquanto sua expressão permanecia a mesma, indefinível.
"Eu não posso viver sem ele", ela repetia incessantemente, como um mantra, em sua mente.
"Tão linda, tão perfeita... Ainda sou completamente apaixonado por esta garota".
"Me abraça, por favor, diz que ainda me quer".
Ele levantou-se e disse, rapidamente, antes de ter tempo de repensar:

- Melhor assim, não temos nada a ver um com o outro. Nem me lembro por que nos apaixonamos.
- Verdade.

E partiu sem olhar para trás.

Deixaram a perfeição de seus sentimentos ser maculada pelas palavras. Elas, que saíam de suas bocas sem permissão, como adolescentes fugindo do controle dos pais, rebelando-se contra uma causa inexistente, tatuando-se sem pensar nas conseqüências futuras, no arrependimento que um dia, cedo ou tarde, bateria em suas portas

Filme: Waking Life


Existem dois tipos de sofredores...
aqueles que sofrem
da falta de vida...
e os que sofrem da abundância
excessiva da vida.
Eu sempre me posicionei
na segunda categoria.
Quando se pensa nisso, quase todo
comportamento e atividade humana...
são, essencialmente, nada diferentes
do comportamento animal.
As mais avançadas tecnologias e
artefatos levam-nos, no máximo...
ao nível do super-chimpanzé.
Na verdade, o hiato entre Platão
ou Nietzsche e o humano mediano...
é maior do que o que há entre
o chimpanzé e o humano mediano.
O reino do verdadeiro espírito...
o artista verdadeiro, o santo,
o filósofo, é raramente alcançado.
Por que tão poucos?
Por que a História e a evolução
não são histórias de progresso...
mas uma interminável e fútil
adicão de zeros?
Nenhum valor maior se desenvolveu.
Ora, os gregos, há 3.000 anos,
eram tão avançados quanto somos hoje.
Quais são as barreiras
que impedem as pessoas...
de alcançarem, minimamente,
o seu verdadeiro potencial?
A resposta a isso pode ser encontrada
em outra pergunta, que é...
qual é a característica humana
mais universal?
O medo...
ou a preguiça?


O que está escrevendo?
Um romance.
Qual é a história?
Não há história. São só...
pessoas, gestos, momentos.
Fragmentos de sensações.
Emocões evanescentes.
Em resumo...
as maiores histórias já contadas.
Você está na história?
Acho que não.
Mas estou meio que lendo-a
para depois escrevê-la.

quinta-feira, agosto 24, 2006

Sartre


"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós"

Filme: Terráqueos


(Abaixo, links onde você poderá assitir ao filme TERRÁQUEOS onde humanos que tratam mal animais são comparados a nazistas. Até onde o homem vai com sua ganância?)

parte 1:, parte 2:, parte 3:, parte 4:, parte 5:, parte 6:, parte 7:, parte 8:, parte 9:, parte 10:

domingo, agosto 13, 2006

Escultura: Jean de Fiennes - Rodin


"A vida é apenas uma fina camada de mofo sobre a superfície terrestre" - Schopenhauer

Cotidiano: Dia após dia, ano a ano - Gina Emanuela

Acordou com o despertador. Esperou aqueles dez minutos de praxe para levantar-se _ aqueles dez minutos que levamos para acostumarmo-nos com a idéia de que temos sim que levantar, muito embora ainda estejamos morrendo de sono. Depois só mais cinco minutinhos de preguiça, concedidos como recompensa antecipada pelo logo dia acordado que teria. Só então se levantou de vez. Nem se preocupou se o pé que havia pisado primeiro o chão havia sido o esquerdo ou o direito. Não era dado a superstições - bobagens simbólicas criadas e acreditadas por cabeças por demais imaginativas e necessitadas. Vazias? Não. Cheias dessas bobagens. Mas não era nisso que ele pensava agora enquanto escovava os dentes. Era isso que ele achava, era isso que carregava dentro de si junto a um monte de outros conceitos já formados sobre tudo, mas agora ele era só um homem com muito sono e a boca cheia de pasta na frente do espelho. Cuspiu, lavou o rosto, limpou com cuidado o canto dos olhos, se achou bonito, tomou o café que lhe fizeram, balbuciou quaisquer bons dias e foi tomar o ônibus.
Mal colocara o pé na calçada, o ônibus chegou. Ele quase pensou que estava com sorte, mas desanimou ao ver o quão lotada estava à condução. Tanta gente! Se esses não estivem esperado também quinze minutos a mais na cama teriam pegado o ônibus mais cedo e agora ele seria um ser feliz. Pegou o troco. Passou na roleta. Sentiu corpo de gente de perto. Suou com eles. Ouviu música ruim. Conseguiu uma vaga na janela. É, estava com sorte. E nem acredita em azar ou sorte.
Chegou, desceu, tropeçou, apanhou a moeda no chão, sorriu pro porteiro em resposta. Trabalhou o dia todo. Cansou-se, se questionou, deixou de besteira, se justificou, se conformou. Uma ponta de dor de cabeça. Quarenta gotas de analgésico. Passou. Fim de tarde foi-se embora, ele e o sol e o ônibus igual rumo ao destino _ sua casa, chegada que é a mesma largada. Chegou, descalçou, coçou, comeu e deitou. Se havia pensado em algo não se sabe, nem se há de saber: dispensou. Mais espelho e pasta nos dentes. Nenhuma preocupação em se achar bonito. Pra dormir? Antes de deitar-se, um copo d´água. Aproveitou a janela aberta e deu uma espiada no céu, viu que fazia lua cheia. Isso não o deslumbrou, nem o amedrontou. Ele apenas constatou. Depois cochilou, cochilou e dali a pouco estava dormindo pra tudo de novo. De novo, muito pouco ou nada. Era um adulto.

Filme: Waking Life


Na visão de mundo atual, a Ciência
tomou o lugar de Deus...
mas alguns problemas filosóficos
ainda nos perturbam.
Livre-arbítrio, por exemplo.
Esse problema está na praça
desde Aristóteles, em 350 a.C.
Santo Agostinho e São Tomás de Aquino
questionavam "como sermos livres...
se Deus já sabe tudo
o que iremos fazer?"
Hoje, sabemos que o mundo é regido
por leis físicas fundamentais.
Essas leis regem o comportamento
de cada objeto do mundo.
Como essas leis são confiáveis,
elas viabilizam avanços tecnológicos.
Nós somos sistemas físicos. Arranjos
complexos de carbono e de água.
Nosso comportamento não é
excecão a essas leis.
Logo, se é Deus programando isto
de antemão e sabendo de tudo...
ou se são leis físicas nos governando,
não há muito espaço para a liberdade.
Pode-se querer ignorar
o mistério do livre-arbítrio.
Dizer: "É uma anedota
histórica, uma inconsistência.
É uma pergunta sem resposta.
Esqueça isso."
Mas a pergunta permanece. Quanto
à individualidade, quem você é...
se baseia nas livres escolhas que faz.
Ou pelas quais se responsabiliza.
Só se é responsabilizado,
ou admirado, ou respeitado...
pelas coisas que se faz
pela própria escolha.
A pergunta retorna sem cessar
e não temos uma solucão.
Decisões podem parecer charadas.
Imagine só. Há atividade elétrica
no cérebro. Os neurônios disparam...
enviando um sinal através dos nervos
até os músculos. Estes se contraem.
Você estende seu braco.
Parece uma acão livre...
mas cada parte desse processo...
é governada por leis físicas,
químicas, elétricas etc.
Parece que o Big Bang
causou as condicões iniciais...
e todo o resto
da História humana...
é a reação de partículas subatômicas
às leis básicas da física.
Nós achamos que somos especiais,
que temos alguma dignidade.
Isso agora está ameaçado.
Está sendo desafiado por este quadro.
Você pode dizer: "E quanto à mecânica
quântica? Conheço o bastante...
para saber que é uma
teoria probabilística.
É frouxa, não é determinista.
Permite entender o livre-arbítrio."
Mas, se olharmos detalhadamente,
isso não ajudará...
porque há as partículas quânticas
e o seu comportamento é aleatório.
Elas são meio transgressoras.
Seu comportamento é absurdo...
e imprevisível. Não podemos estudá-Io
com base no que ocorreu antes.
Ele tem um enquadre probabilístico.
Será a liberdade apenas
uma questão de probabilidade?
Aleatoriedade em um sistema caótico?
Eu prefiro ser uma engrenagem em
uma máquina física e determinista...
que uma transgressão aleatória.
Não podemos ignorar o problema. Temos
que incluir pessoas nesta perspectiva.
Não apenas corpos, mas pessoas.
Há a questão da liberdade...
espaço para escolha, responsabilidade
e para entender a individualidade.

Filme: Quem Somos Nós?

O materialismo moderno tira das pessoas a necessidade de se sentirem responsáveis, assim como a religião! Mas eu acho que se você levar a mecânica quântica a sério, verá que ela coloca a responsabilidade nas nossas mãos e não dá respostas claras e reconfortantes. Ela só diz que o mundo é muito grande e cheio de mistérios.
O mecanismo não é a resposta, mas não vou dizer qual é, pois vocês têm idade suficiente para tomarem suas decisões.
Por que continuamos recriando a mesma realidade?Por que continuamos tendo os mesmos relacionamentos? Por que continuamos tendo os mesmos empregos repetidamente? Nesse mar infinito de possibilidades que existem à nossa volta, por que continuamos recriando as mesmas realidades? Não é incrível existirem opções e potenciais que desconhecemos? É possível estarmos tão condicionados à nossa rotina, tão condicionados à forma como criam nossas vidas, que compramos a idéia de que não temos controle algum?
Fomos condicionados a crer que o mundo externo é mais real que o interno. Na ciência moderna é justamente o contrário. Ela diz que o que acontece dentro de nós é que vai criar o que acontece fora. Existe uma realidade física que é absolutamente sólida, mas só começa a existir quando colide com outro pedaço de realidade física. Esse outro pedaço pode ser a gente, claro que somos parte desse momento, mas não precisa necessariamente ser. Pode ser uma pedra que venha voando e interaja com toda essa bagunça, provocando um estado particular de existência.
Filósofos no passado diziam: "Se eu chutar uma pedra e machucar meu dedo, é real. Estou sentindo, é vívido." Quer dizer que é a realidade. Mas não passa de uma experiência, e é a percepção dessa pessoa do que é real.
Experimentos científicos nos mostram que se conectarmos o cérebro de um pessoa a computadores e scanners e pedirmos para olharem para determinados objetos, podemos ver que certas partes do cérebro sendo ativadas. Se pedirmos para fecharem os olhos e imaginarem o mesmo objeto, as mesmas áreas do cérebro se ativarão, como se estivessem vendo os objetos. Então os cientistas se perguntam: quem vê os objetos, o cérebro ou os olhos? O que é a realidade? É o que vemos com nosso cérebro? Ou é o que vemos com nossos olhos?A verdade é que o cérebro não sabe a diferença entre o que vê no ambiente e o que se lembra, pois os mesmos neurônios são ativados.

sábado, agosto 12, 2006

Visões: Bertolt Brecht e Schopenhauer

"Um homem pessimista
É tolerante.
Ele sabe deixar a fina cortesia desmanchar-se na língua
Quando um homem não espanca uma mulher
E o sacrifício de uma mulher que prepara café para
seu amado
Com pernas brancas sob a camisa -
Isto o comove.
Os remorsos de um homem que
Vendeu o amigo
Abalam-no, a ele que conhece a frieza do mundo
E como é sábio
Falar alto e convencido
No meio da noite."



"Se olharmos a vida em seus pequenos detalhes, tudo parece bem ridículo. É como uma gota d'água vista num microscópio, uma só gota cheia de protozoários. Achamos muita graça como eles se agitam e lutam tanto entre si. Aqui, no curto período de vida humana, essa atividade febril produz um efeito cômico "