segunda-feira, abril 24, 2006

A mulher de corpo leguminoso - Silvia Curiati

Foi ao Pajé para tentar resolver seu problema de corpo-tábua. O que mais a incomodava era o formato da batata de sua perna, que parecia mais uma cenoura. Na verdade, tudo estava ruim. Não tinha peito, bunda, coxa, braço, não tinha carne, era só osso.
O Pajé, com pena, considerou-a caso perdido. Nenhum de seus chás, suas ervas mágicas e suas preces fortes fariam milagre no corpo daquela moça. Sugeriu cirurgia plástica.
Silicone? Implante de gordura? Não, era tudo muito artificial. Não poderiam fazer isso, justo eles, que são mais parte da natureza que uma flor num jardim da capital.
Optaram por usar frutas, legumes, tubérculos, tudo o que fosse necessário. Para que você entenda bem: ela não iria comer os alimentos. Iria implantá-los no seu corpo.
Começou, então, pelas batatas. Uma grande em cada perna, com casca e tudo. Nas coxas, berinjelas superdotadas. Nos glúteos, inspirada no modelo de beleza das capas de revistas, colocou uma melancia, metade de cada lado. Ia ficar uma gracinha, já que não tinha nenhuma barriga. Nos seios colocou laranjas, bem redondas e grandes.
Após sair da mesa do Pajé sentiu-se renovada, muito mais bonita. Não entendia porque havia demorado tanto para decidir-se pela cirurgia. Todas fazem plástica hoje. Ela garante juventude eterna, beleza infalível, proporções irretocáveis.
O problema foi o tempo, implacável senhor da humanidade. Tira a vida e a formosura de tudo o que existe. Vence-o quem gera beleza de dentro para fora. Os demais são destruídos.
Os implantes começaram a apodrecer, como era de se esperar. Ninguém pensou em colocar conservantes para mantê-los imutáveis por mais tempo. Primeiro começam a perder o viço, murchando lentamente. Depois começam a feder. E as conseqüências na pele são visíveis a olho nu. O odor, nem fale. Era impossível passar 2 minutos perto da moça, que cheirava como um caminhão de lixo.
Ficou mais feia do que era antes. Carregada por aves de rapina durante o sono, nunca mais foi vista por ninguém na aldeia. Reza a lenda que uma tribo de canibais transformou-a em sopa, como opção um pouco mais vegetariana do cardápio do Natal

4 comentários:

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