sexta-feira, março 31, 2006

A ligação - por Bruno Braga

Já passava das onze quando acordou assustado. Era o grande dia, o dia da ligação que tanto esperara. Tomou quatro xícaras de café para ver se o tempo passava mais rápido, o que não adiantou muito, pois a ansiedade o fez beber as quatro xícaras em menos de cinco minutos. Precisava arranjar alguma coisa para fazer, caso contrário passaria o dia inteiro encarando o maldito telefone que insistia em não tocar. Decidiu tentar ler, afinal sempre relaxava com uma boa leitura. Mas não dessa vez. Não conseguia ler uma linha sequer. Estava tenso demais para realizar essa tarefa tão complicada.
Deram duas horas e nada. Já não agüentava mais andar de um lado para o outro da casa com o telefone sem fio na mão. Toque, maldito! Foi então que surgiu a preocupação: e se o telefone tiver quebrado? Sem sinal? Ligou o aparelho e colocou rapidamente no ouvido para ouvir o barulhinho que fazia. Se fosse um tuuuu contínuo, então estava bem. Mas se fosse um tu tu tu intercalado, então estaria com sérios problemas. Para sua tranqüilidade (ou desespero) o barulhinho foi contínuo. Já passava das cinco, com o sol já quase se pondo naquele domingo que parecia que não ia acabar quando resolveu ligar do seu celular para testar se o telefone estava realmente funcionando. Não é possível, já vai dar seis horas! Ligou. Chamou. Desligou rapidamente. Mas e se nesse exato momento a ligação tão esperada tivesse acontecido e tivesse dado ocupado? Suou frio ao pensar isso. Bom, agora não tem mais jeito, pensou. Esperou. Nada de tocar o maldito telefone.
Olhou no relógio, eram oito e trinta e sete. Detestava horas com números quebrados, mas no momento aquele era o menor de seus problemas. Sentiu o estômago roncar e percebeu que só havia tomado algumas xícaras de café e comido uma Cream Cracker o dia inteiro. Precisava comer alguma coisa. E foi justo quando se dirigia para a cozinha que o bendito telefone tocou. O susto foi tão grande que quase deixou o aparelho cair e estragou todo um dia de espera. Esperou tocar a segunda vez. Pigarreou para não faltar voz. Durante a terceira chamada, atendeu com o ‘alô’ que treinou o dia inteiro. “Não, não é da Naja Turismo”. “Não, não sei informar o telefone da maldita Naja Turismo”. “Não, eu não faço passeios turísticos”, gritou. Desligou. Perdeu a fome.
Voltou pro quarto e deitou-se na cama. Não agüentava mais a espera. Os ombros doíam, os olhos ardiam, as mãos tremiam. Estava exausto de tanto esperar a maldita ligação. Perdeu as forças e permaneceu deitado, fitando aquele aparelho que insistia em não cooperar. Ficou assim até umas três e treze da manhã (como odiava horas com números quebrados) quando olhou para o relógio pouco antes de, finalmente, conseguir dormir. Sonhou a noite inteira com vários telefones tocando. Um barulho ensurdecedor. Mas no sonho não conseguia atender a nenhum deles. Foi quando um dos telefones pareceu tocar mais alto que todos os outros. Foi se aproximando e percebeu que não estava sonhando. Havia acordado e o bendito telefone estava realmente tocando. Sorriu melancolicamente. Pigarreou. Atendeu. “Não, não é da Naja Turismo”. E desligou o maldito telefone.

5 comentários:

MarceLLo oLLecraM disse...

tenho todas as cenas descritas perfeitamente claras na minha cabeça...muito bom...e acho q eu q dei o tel da Naja turismo prum cara!(claro q foi o teu)

Anônimo disse...

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