quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Desconversa - Luis Fernando Verissimo

Quando duas pessoas que não se conhecem são obrigadas a passar algum tempo juntas (motorista de táxi e passageiro, viajantes sentados lado a lado em avião, ônibus ou trem, um atrás do outro numa fila que não anda etc.), em 77% dos casos elas conversam sobre o tempo.
— Quente, né?
— Este verão promete...
— Mas acho que vai chover.
— Tá com cara...
O tempo é um assunto seguro. De todas as coisas que as duas pessoas têm indiscutivelmente em comum (ambas são seres humanos, falam a mesma língua, estão ali com um destino ou um objetivo igual e são contemporâneas) o fato de estarem experimentando as mesmas condições climáticas é a mais indiscutível de todas.
— Ontem deu uma refrescadinha.
— É verdade. Pelo fim da tarde.
— Isso.
Nenhum desacordo é possível, quando se começa conferindo o sentimento de cada um a respeito da temperatura vigente. Falar sobre futebol é arriscado. Política, nem pensar. E não ficaria bem comentarem sua humanidade comum, suas afinidades básicas como espécie.
— Não pude deixar de observar que a senhora é uma bípede mamífera de sangue quente, como eu.
— Que coincidência!
Melhor falar sobre o tempo. É o assunto mais à mão, e o único com cem por cento de garantia de interessar a todos e fazer parte de uma experiência universal.
Mas existe outro assunto comum a toda a espécie, talvez o assunto prioritário da espécie, que só não inaugura todas as conversas porque também é o seu principal terror. A morte. Falamos do tempo para não falarmos da nossa outra afinidade óbvia, a mortalidade. Ou, talvez, quando falamos do tempo, estejamos falando sobre a morte, em código.
— Quente, né? (Você sabe que nós vamos morrer, não sabe?)
— Nem me fale. (Sei. Todos sabem.)
— Fazer o quê? (O jeito é viver como se não soubéssemos. Seria impossível levar uma vida normal se não conseguíssemos conviver com nossa mortalidade, e acomodá-la, como uma hérnia inoperável.)
— Mas o tempo pode virar. (Acho que a única saída para quem não aceita a própria morte é o suicídio.)
— O que é que diz a meteorologia? (Temos é que negociar com a morte o tempo todo, como se negocia um armistício. Reconhecendo a sua vitória e o seu domínio, mas exigindo tratamento digno, como é o direito de todo prisioneiro.)
— Eles nunca acertam. (Não se pode racionalizar com a morte. Ela não tem nenhum acordo para oferecer, nenhuma saída, nenhum meio-termo. Não tem nem uma explicação para nos dar. A única maneira de tratar a morte é nos seus próprios termos: ignorá-la, e tentar viver como se ela não existisse.)
— Eu não agüento calor. (Ou matá-la com um tiro na nossa têmpora.)
— Eu também prefiro o frio. (É o nosso próprio corpo que nos mata. Matá-lo primeiro, francamente, me parece uma forma de colaboracionismo.)
— A gente trabalha melhor, come melhor... (Mas negociar com a morte significa reduzir toda a nossa vida a um pedido de clemência, todo diálogo a uma troca de lamúrias. Não é só a vida que fica inviável, é a conversa. Pois tudo que não é com ou sobre a morte, é desconversa.)
Mas há quem diga que toda conversa, no fundo, é sobre sexo. Outro assunto universal.
— Quente, né? (Topas?)

2 comentários:

Fernanda disse...

Ótimo!...
Primeiro, é verdade... eu moro no sexto andar e trabalho no segundo, portanto, no elevador, 'clima' é assunto clássico!
Mas, já pensou... sobre sexo, seria muuuito interessante:
- "E aí, qual sua posição preferida?"
- "Ah, eu adoro..."
Que post mais surreal, Thiago!

Thiago Braga disse...

Que grande barreira o cristianismo nos deu em relação ao sexo. E pensar que nem sempre foi assim... Que o sexo era visto como algo puro, normal e sem castrações. E hoje quem pensa o contrário é doiso ou tarado.. Fazer o que? São 2000 de tradição.