quinta-feira, junho 28, 2007

Pereio estréia programa de entrevistas do Canal Brasil - Xico Sá

"Não há mais, a essa altura, como zelar pela reputação... Agora eu tenho é que zerar minha reputação".


Marlon Brando morreu, mas Paulo César Pereio, 64 anos exageradamente bem vividos, passa muito bem, obrigado.

Um tanto quanto sereno e tomado por uma certa leseira brechtiana --o homem sacaneando o mito cafajeste do ator e da obra--, Pereio estréia, depois de amanhã, o "Sem Frescura", programa de entrevistas do Canal Brasil.

O embate-homenagem com o Brando de "O Último Tango em Paris" é coisa da grande comunidade "pereioística" no Orkut --o novo centro de discussões da internet. Um desnecessário exercício de macheza comparada. Polêmica que o Doutor Ailton, um dos filiados mais ativos da sociedade virtual do ator gaúcho, parece ter liquidado: "Com todo respeito ao M.B., mas o cara nunca foi assim nenhum Pereio", mandou.

Ser um Pereio é não amaciar a língua, é não "amanteigar" jamais as declarações, mesmo na sua fase "Pereiozinho paz & amor", como declara sobre o recreio sossegado que vive. Logo no primeiro "Sem Frescura", sapecou contra as moças de outro televisivo, o "Saia Justa" (do canal GNT).

"Aquele programa de merda que as quatro fazem...", manda ao ar, enquanto tenta lembrar o nome do programa. "Quatro mulheres chatas...", tenta ganhar tempo ainda com a sua falta de jeito para o padrão "talk show". O alvo para valer seria apenas uma das criaturas do quarteto: Marisa Orth.

A atriz havia dito, em uma das edições do "Saia Justa", que Cissa Guimarães, ex-mulher de Pereio, tinha "comido o pão que o diabo amassou" durante o casamento com ele. Declarou também que o ator era viciado em drogas.

"Disse que eu era dependente químico, como se fosse chique delatar um colega de profissão", responde Pereio logo no primeiro "Sem Frescura". Resposta besuntada de algum deboche, mas sem a dicção da ira. Pereio está tranqüilo. Tamanho família.

Na estréia, a convidada é justamente a atriz e ex-mulher Cissa. A direção do programa é da filha Lara Velho, o roteiro é de Neila Tavares, mãe de Lara. A produção é da Macaya, firma também ligada à família, em sociedade com a Globosat. "Logo, logo os parentes vão acabar", avisa o novo apresentador, sacaneando a lista do nepotismo escancarado.

A conversa com Cissa Guimarães é muito cordial e reveladora da grande paixão da mocinha que caiu nas "garras do canalha" ainda na menoridade. Ele caminhava para os 40, ela tinha 17. "Como você se sentia comigo?", indaga a atriz. "Ah, me sentia um pedófilo", responde.

Pereio está tranqüilo, camisa aberta, bermudão, chinelo, animal dos trópicos. O cenário é um jardim, duas cadeiras. O ator coça a perna em algumas ocasiões. Não se trata de um tique à moda Actor's Studio, nada das invencionices de Brando. Apenas a falta de jeito para a nova atividade.

"Virou cult", diz Cissa, a ex-mulher que teria comido o pão que o diabo amassou. "Comi outras coisas mais gostosas", agora quem responde é a própria ex-mulher. Pereio mordisca o lábio, sem a delicadeza dos trejeitos de Brando.

Por causa de falta de pagamento de pensão alimentícia, a ex-mulher levou o ex-marido à prisão, no início dos 90. De tão batido, o tema não foi tocado na entrevista. Falaram muito dos dois filhos que tiveram, João e Tomás, meninos de 20 e poucos anos. "Pelo menos não tem nenhum veado", diz no programa de estréia, mais uma vez rindo da imagem de "cafa" que colou à sua biografia.

Pereio não é cult e celebrado por acaso. São peças a perder a conta, como diz, e 60 filmes. O seu "porra" é um clássico de final de frase nos diálogos. Na sua comunidade no Orkut, os admiradores também falam assim. A cada final de período, tacam lá a velha exclamação, "porra!".

A vida e obra de Pereio vai virar um documentário, já em fase adiantada de produção, chamado "Pereio Eu te Odeio", dirigido por Allan Sieber, autor de quadrinhos, cartunista e animador. É também de Sieber a abertura de "Sem Frescura", uma animação carregada de testosterona.

Por ter construído --à revelia ou não-- uma carreira em tons malditos, Pereio, aparentemente mais sossegado, agora se vê diante de uma pergunta provocativa feita tanto por quem o ama como por quem o odeia: seria hoje um careta?

Embora tenha largado um pouco o caminho do excesso, aquele que, segundo o poeta William Blake, conduz ao palácio da sabedoria, o ator se diz mais calmo, menos desleixado com a saúde, mas com a mesma tormenta interior. Cissa Guimarães provoca, familiar: "O Pereio está careta, ele não falta mais", diz, referindo-se a algumas confusões que envolveram diretores de teatro e cinema e o ex-marido.

Como disse o próprio ator outro dia, em uma mesa do Jobi, botequim da boemia do Baixo Leblon, é hora do grau zero da sua imagem: "Não há mais, a essa altura, como zelar pela reputação... Agora eu tenho é que zerar minha reputação".
Entrevista na playboy:




Perfect Day - Lou Reed

Just a perfect day
drink sangria in the park
And then later when it gets dark
we go home

Just a perfect day
feed animals in the zoo
Then later a movie too
and then home

Oh, it's such a perfect day
I'm glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
you just keep me hanging on

Just a perfect day
problems all left alone
Weekenders on our own
it's such fun

Just a perfect day
you made me forget myself
I thought I was someone else
someone good

Oh, it's such a perfect day
I'm glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
you just keep me hanging on

You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
(tradução)

Quando Vier A Primavera - Alberto Caeiro (F.P.)


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

quarta-feira, junho 27, 2007

Esta Vida - Guilherme de Almeida

Um sábio me dizia: esta existência,
não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo. E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.

Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.
Um monge me dizia: ó mocidade,
és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa;
esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto;
o riso, às vezes, quase sempre, um pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida,
quadro círios acesos : eis a vida

Isto me disse o monge e eu continuei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.
Um pobre me dizia: para o pobre
a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus, eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado
.
Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.
Uma mulher me disse: vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça.
Cortinas muito brancas na vidraça
Um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!

Pela primeira vez eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver.


terça-feira, junho 26, 2007

Motel - Luiz Fernando Veríssimo

Mirtes não se agüentou e contou para a Lurdes:
- Viram teu marido entrando num motel.
A Lurdes abriu a boca e arregalou os olhos.
ficou assim, uma estátua de espanto,durante um minuto, um minuto e meio. Depois pediu detalhes.
- Quando? Onde? Com quem?
- Ontem. No Discretíssimu's.
- Com quem? Com quem?
- Isso eu não sei.
- Mas como? Era alta? Magra? Loira? Puxava de uma perna?
- Não sei, Lu.
- Carlos Alberto me paga. Ah, me paga.
Quando o Carlos Alberto chegou em casa a Lurdes anunciou que iria deixá-lo e contou por quê.
- Mas que história é essa, Lurdes? Você sabe quem era a mulher que estava comigo no motel.
- Era você!
- Pois é. Maldita hora em que eu aceitei ir.
- Discretíssimu's! Toda a cidade ficou sabendo. Ainda bem que não me identificaram.
- Pois então?
- Pois então, que eu tenho que deixar você. Não vê? É o que todas as minha amigas esperam que eu faça.
Não sou mulher de ser enganada pelo marido e não reagir.
-Mas você não foi enganada. Quem estava comigo era você!
-Mas elas não sabem disso!
- Eu não acredito, Lurdes! Você vai desmanchar nosso casamento por isso? Por uma convenção?
- Vou!
Mais tarde, quando a Lurdes estava saindo de casa, com as malas,o Carlos Alberto a interceptou. Estava sombrio:
- Acabo de receber um telefonema - disse.
- Era o Dico.
- O que ele queria?
-Fez mil rodeios, mas acabou me contando. Disse que, como meu amigo, tinha que contar.
- O quê?
- Você foi vista saindo do motel Discretíssimu's ontem, com um homem.
- O homem era você!
- Eu sei, mas eu não fui identificado.
- Você não disse que era você?
- O que? Para que os meus amigos pensem que eu vou a motel com a minha própria mulher?
- E então?
O quê???
- Vou ter que te dar uma surra...


CONCLUSÃO:
DEVEMOS CUIDAR APENAS DA NOSSA SAÚDE, POIS DA NOSSA VIDA, TODO MUNDO CUIDA...

Felicidade Realista - Mário Quintana

A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote
louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.
Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser
magérrimos, sarados, irresistíveis.
Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema:
queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas.
E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos
conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar
pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente
apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes
inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos
sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito.
É o que dá ver tanta televisão.
Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista.
Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você
pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um
parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente
quando se trata de amor-próprio.
Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo,
usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o
suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado E se a gente tem
pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que
saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de
criatividade.
Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável.
Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o
estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar.
É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza,
instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente.
A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio.
Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está
alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se.
Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não
se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la
e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e
não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso
coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.

terça-feira, abril 17, 2007

Curta: Diário de Três




Parabéns Gininha!

Crônica existencialista - Airton Monte

Tarde calma, vento quieto, mar aberto, céu tão claro. Você diamante raro ardendo nas luminosas horas antes que eu mergulhe na profundez das trevas. Ninguém tem culpa de nascer poeta, nem mesmo os maus poetas que são como daninhas ervas a proliferar em meio aos líricos desertos. Você tão jovem e eu tão velho, vendo de bobeira o tempo se escoar feito mijo no ralo do banheiro e eu, nem que nem, como se tudo que acontece a meu redor nada houvesse a ver comigo, como se eu fosse alguém à parte, um simples destroço de não sei que vão naufrágio. Talvez você me amasse com toda sofreguidão possível num inimaginável frenesi e juvenil furor de felina.

E eu, nem que nem, enfiado até o talo no cerne do mundo, no ventre de todas as mulheres que jamais possuí por incúria, crueldade e preguiça. Ah, eu sou em verdade em belo tolo, porém meus olhos reluzem como punhais no breu e eu, capitão de breve curso, vou em meio ao nevoeiro ouvindo um samba triste de Paulinho da Viola, a levar meu boêmio barco devagar. Noite dessas, a chuva grossa dedilhando um blues no meu telhado, eu sonhei morrendo e era uma morte de tal maneira delicada pois me deu a nobre graça de morrer de repente e súbito, morri, sem nenhuma dor como se apenas houvesse adormecido após um báquico porre de existência.

E muito naturalmente, subi aos infernos e vi que estava, afinal, no lugar certo para restar numa infinita atemporalidade. O que importa se acordei de um bendito pesadelo, se o inferno nada mais é que a realidade nua e crua feito um naco sangrento de um rosbife e um longo, abençoado gole de esquecimento. Eu insisto em ser eu mesmo, único e indevassável dentro de mim mesmo como num verso maldito do meu pai, poeta, áspero irmão José Alcides Pinto, a mais doce e humana encarnação da Besta. É-me impossível abdicar de ser eu mesmo. Eu, Eu, Eu gravado em inscrições escritas com o sangue dos meus antepassados.

Negras nuvens prenhes de chuva pairam sobre o fim de tarde de um domingo pleno de agonizantes prazeres e promessas. Teus olhos de Sulamita refulgem de uma claridade ainda não desperta e permitida, sarça ardente. Em mim, porém, nenhuma gota de vento solar, é só uma imensa, oceânica sensação de que ainda estou fremente feito a incandescência final da cauda de um cometa extinto. E eu estou no mundo qual um personagem de Sartre e eu, nem que nem, mergulhado no caldeirão da vida. E eu, nem que nem, animal forjado no miserável cotidiano. Um dia hei que despertar do pesadelo gritando: que coisa mais bela é a vida.

Bukowski


"Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso, Deus Todo-Poderoso, o que mais agora?"

A morte medíocre do Capitão Gancho e o casal pirata - Rodolfo Viana

- Smee, assuma a proa – ordenou o desairoso James Hook, tão imperativo quanto aqueles bigodes apontando para o céu, e foi à outra ponta do convés resmungando que “aquelas lulas não caíram bem”. Precisava se aliviar.

O adiposo Smee não deu ouvidos ao pedido. Continuou fazendo o que sempre fazia – nada. Irritado com a omissão do companheiro corsário, Starkey, homem de confiança do capitão, assumiu o posto.

- Isso, seu saliente – disse Smee, irritado – Puxa mesmo o saco do capitão.

- Tenho que manter os negócios da família, oras! Ainda mais agora que o capitão pensa em largar essa vida de pilhagem...

- Ah, você só está nesse barco por puro nepotismo...

Starkey rezingou um “humpf”.

Silêncio.

- O que seu tio, nosso glorioso capitão, vai fazer quando deixar essa vida? Vai ser goleiro do Íbis? – disse Smee, rindo todo o sarcasmo dos sete mares. Sabia que falar da deficiência física do capitão era inundar de ira o coração de Starkey.

- Seu puto! – berrou em resposta – Ainda te mato!

- Ah, convenhamos... O que um homem com um gancho no lugar da mão direita pode fazer? Se ainda fosse canhoto...

Starkey se recompôs. Era um pirata de bons modos, afinal. Efeminado, inclusive.

- Não vou tolerar esse tipo de agressão, ainda mais levando em conta que meu tio é ventríloquo. Sabia disso? Sabia que nas horas vagas, entre uma fuga de crocodilo e uma briga com crianças, ele pratica ventriloquia?

Silêncio novamente. E então, uma crise de riso do tamanho do oceano irrompeu a mudez.

- Seu tio? Ventríloquo? Com aquele gancho? – dizia Smee, entre golfadas de ar.

- Pois é um excelente ventríloquo. Amador ainda, mas excepcional – disse Starkey, a polidez em pessoa, e profetizou um “vai ter um futuro brilhante”.

Não teve.

Enquanto se aliviava na ponta do convés, assoviava, como de costume, La vie em rose. Por isso, o Capitão Gancho não ouviu o tique-taque do crocodilo e foi devorado impiedosamente.

Smee ainda viu quando o crocodilo regurgitou o gancho, mas achou que não fosse nada. E no mais, os “negócios de família” ficariam para Starkey, que parecia nutrir um certo desejo proibido pelo adiposo Smee.

Quando Starkey apercebeu-se da morte do tio, chorou o choro de novela mexicana. Mas Smee estava ali para consolá-lo. E desde então, Smee e Starkey vivem juntos. Pensam em adotar uma criança da Terra do Nunca. Ou isso, ou comprar um poodle toy.

link: http://www.revistapiaui.com.br/2007/abr/concurso_vencedor.htm

O futuro chegou - Silvia Curiati

Sempre me lembro do dia em que, com 7 aninhos de idade, minha amiguinha Vanessa e eu fizemos apostas de quando começaríamos a usar caneta para escrever nos cadernos Caderflex da escola. Em seguida, falamos do futuro mais distante. Fizemos as contas e chegamos à conclusão de que no ano 2000 deveríamos estar casadas, depois de ter passado o Reveillon do milênio no Rio de Janeiro. Talvez, um ou dois anos antes, teríamos feito uma super viagem de carro pelo mundo. E tais carros voariam, claro.

O futuro me decepcionou um pouco, confesso. Esperava realmente ver carros voadores, tele-transporte, gente ficando invisível e quadros como os de Daniel Azulay, que se revelam à pincelada do artista. Esperava ter feito a viagem de carro alado pelo mundo, mas por outro lado, fico feliz por não estar casada, com filhos, etc. e tal.

Por estas e outras, é complicado falar do futuro da humanidade quando cada vez mais somos surpreendidos por aberrações. Transgênicos, clones, malucos, mulheres sendo inseminadas por girinos, homens-mutantes que se transformam em répteis. É impossível saber o que vem depois, é difícil imaginar o que nos espera. Diziam que não teríamos mais água suficiente para suportar a superpopulação, por exemplo. E que os ETs estariam entre nós, as baratas seriam superdesenvolvidas e imortais, e quiçá transformariam-se em escritores de renome.

É fato, há ETs entre nós e as baratas estão cada dia mais cascudas e difíceis de morrer. E na boa, com esta expectativa, a humanidade está perdida mesmo, como já dizia minha vovó...

quinta-feira, março 29, 2007

Os presentes de Alice - Cláudio Parreira

Alice. Mulherão essa Alice. E vivia querendo coisas:
- Compra um apartamento pra mim, bem?
Eu comprava. Porque ela, sorrindo, isso não tinha preço.

Alice era dada a excentricidades. Poucas, mas ainda assim:
- Compra a lua pra mim, bem?
Eu comprava. E colocava um punhado de estrelas no papel de presente.

Vez ou outra ela emburrava. Não de ficar burra, que ela nunca foi assim, mas emburrar de entristecer, vocês me entendem. Eu fazia caretas, alugava elefantes, tudo pra ela melhorar. Mas ela só melhorava daquele jeito:
- Compra o charme da Gisele Bündchen pra mim?
Eu comprava. Um exagero, concordo, Alice era charmosa o suficiente, mas fazer o quê?

* * *

Alice também era uma mulher de muito bom gosto. Sabia apreciar as coisas boas da vida, as belas coisas:
- Compra um Picasso, um Van Gogh e um Warhol pra mim, bem?
Eclética, como vocês puderam perceber. E eu, é claro, comprava.

* * *

Um dia Alice foi ao cinema e viu uma sereia no filme. Voltou da sessão radiante. E pediu:
- Eu quero uma sereia, bem!
Parti no dia seguinte numa expedição em busca da tal sereia. Fui encontrá-la 30 dias depois no mar gelado da Finlândia.
Quando entreguei o presente a Alice, ela desatou a chorar. Eu perguntei:
- Não é a sereia que você quer?
- É a sereia que eu queria - ela disse. - Mas agora não quero mais.
- O que é que você quer agora?
Alice enxugou as lágrimas e um sorriso brotou no seu rostinho lindo:
- Agora eu quero uma caravela, bem! Uma caravelinha!
Uma caravelinha. Como as caravelas deixaram de ser fabricadas há muito tempo, mandei fazer. Ficou uma beleza. Mas Alice só desembrulhou o presente. Havia um brilho estranho em seus olhos.
- E agora, o que é que você quer? - eu perguntei. - Pede.
- Eu não quero nada, bem. Não quero nada.

* * *

Mas a quietude durou pouco. Logo Alice estava pedindo de novo. E eu, pronto a atender. Quer dizer, mais ou menos.
- Bem, diz que me ama!
Esquisitice. Bem típico de uma mulher como ela. Não que o seu pedido fosse caro demais, longe disso. Não iria me custar um tostão. Mas eu senti que precisava manter a integridade:
- Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!
- Mitômano?
- É.
Ela me olhou com aquele olhar inteligente que só ela tem. E pediu:
- Me compra um dicionário, bem?

***

Depois disso Alice passou quatro anos deprimida, largadona, engordando no sofá francês do século XIX. Sem pedir nada.
Até que, numa bela manhã de carnaval, ela se levantou, emagreceu e pediu:
- Bem, eu quero amor!
Eu caminhei em direção a ela, dei-lhe um demorado beijo na testa e saí para a rua. Não voltei nunca mais. Seria muito doloroso explicar que tem coisas que o dinheiro não compra.

link: http://www.revistapiaui.com.br/2007/mar/concurso_vencedor.htm

Os falsos mendigos - Airton Monte

Não sei, na verdade não tenho a menor idéia se as demais pessoas vêm observando, em nosso perverso cenário citadino, um fato que para mim é inegável, pois se desenrola diante de meus olhos no aparentemente banal cotidiano. A cada dia que passa, torna-se cada vez mais numerosa e variegada a ruma de gente de todas as idades suplicando uma esmolinha pelo amor de Deus nas ruas da cidade. Sem falar naqueles que batem à porta de nossas casas, hora do almoço ou do jantar, dia útil ou feriado, a pedir um adjutório para os mais diversos fins.
Uns pedem um prato de comida. Outros uma ajudinha em dinheiro para enterrar um parente, comprar remédio, inteirar uma passagem de ônibus. Claro está que dentre essa desesperada legião de deserdados da vida, muitos há que estendem humilhantemente a mão sôfrega à caridade pública pela mais premente necessidade de sobrevivência. E não se deve esquecer que todo homem tem o sagrado direito à vida. Outrossim, também coexistem, de mistura com o bagaço humano da implacável moenda social, os indefectíveis espertalhões da mendicância.
São malandros profissionais que se fingem de esmoler para ganhar a vida na maciota, faturar uns bons trocados na moleza. Tais mendigos de araque tornaram-se exímios especialistas em usar e abusar da chantagem sentimental, espicaçando nosso complexo de culpa, tentando amolecer o coração dos transeuntes. Eu não consigo resistir ao impulso de meter a mão no bolso caçando níqueis ao me deparar com um olhar tristonho de uma criança de colo toda esmulambuda, rastejando pelo chão imundo ou crucificada por entre os braços esqueléticos da mãe.
E por saberem o quanto nos comove a miséria infantil exposta degradantemente na vitrine suja das calçadas, é que muitos sabidões ou sabidonas costumam usar os próprios filhos ou rebentos de aluguel como se fossem iscas vivas pra fisgar a suposta caridade dos passantes. Faça chuva ou sol, lá estão os pescadores com seus anzóis humanos nos cruzamentos mais movimentados. E todos nós, feito um cardume de peixes afogados num mar de remorsos, findamos por ser pescados. Que triste país o nosso, em que as crianças de rua só nos despertam dois únicos sentimentos: o medo e a piedade.

link: http://www.opovo.com.br/opovo/colunas/airtonmonte/

terça-feira, março 20, 2007

Deus existe? - Steve Martin


Deus existe? Essa velha pergunta simplesmente não quer sair de cena. Desde o início da história da humanidade, toda vez que alguém acha que tem a resposta, um outro vem logo contestá-lo. A questão persiste e agora repousa no éter, à espreita, para atacar estudantes universitários e, mais tarde, com os 30 anos de idade, bater em retirada, para emergir em festinhas de papo cabeça, e voltar de novo com força total nos “anos filosóficos”. Mas, antes de discutirmos essa questão complexa, permitam que eu me apresente. Sou Toby, o cavalo falante.

Ser um cavalo falante me deixa com tempo de sobra para ponderar acerca desses grandes temas. Ninguém me monta, porque simplesmente digo logo para descer. Assim, tenho muito tempo livre. Às vezes, à noite, para passar as horas, eu canto; às vezes, paquero a beldade que anda no pasto vizinho, a Lily. Às vezes, exercito meus poderes, o que é divertido. Neste preciso momento, de fato, você não lê isto. Apenas pensa que lê. Na verdade, você está ligando para o serviço telefônico do seu banco e transferindo todo o dinheiro para a minha conta.

Na maior parte do tempo, no entanto, assim como fazem muitos outros cavalos, tento fazer anagramas de cabeça. Quando você vê um cavalo parado num pasto, olhando para você, na realidade ele está tentando recombinar letras na cabeça: “amor, ramo, roma...” É coisa natural nos cavalos. A primeira coisa que faço com um problema grande como este, portanto, é repassá-lo em minha cabeça e recombinar as letras. “Deus...” Não sai muita coisa dessas letras, assim como do infecundo “existe”. Vencido o obstáculo desse pequeno exercício neurótico, estou apto a dar o passo seguinte.

Pergunte a si mesmo: preciso de fato saber a resposta para essa questão? Creio que, se for honesto consigo mesmo, você vai perceber que uma resposta do tipo sim-ou-não não iria, na verdade, mudar grande coisa na sua vida. Se bem que um não pode liberar um bocado de tempo, hoje despendido em cultos. Com efeito, não imagino que Deus seja de fato um entusiasta dos cultos. Você pode tomar por base este que lhe fala, Toby, o cavalo falante – ele é tão humilde quanto qualquer deus, e um simples obrigado é tudo o que espera.

Se me perguntar o que veio primeiro, a questão ou a crença, eu diria que a crença precedeu a questão. A questão não leva à crença; a questão leva à descrença. Por outro lado, a crença existe em quase todas as culturas humanas, se bem que às vezes a gente encontra uns povos que rezam para bonecos feitos de esterco. A crença não surge tão naturalmente em animais – o que faz de mim, um cavalo, um perfeito moderador objetivo.

Estabelecerei uma regra básica. Nada de discutir. Discutir é o que vivem fazendo na televisão, e o quê isso traz de bom? Uma grande risada de cavalo para a idéia humana de que a razão alguma vez mudou a mente de alguém. Eu poderia, se quisesse, defender a tese de que o céu é verde. E ganharia a discussão. Por quê? Porque pude estudar o bastante para deixar você encurralado a cada proposição, porque adquiri uma grande velocidade mental na controvérsia-do-céu-verde. Poderia fazer sua cabeça rodopiar com as voltas e as guinadas que eu lançaria sobre você. E sou um cavalo. Mesmo assim, poderia fazer isso. Imagine o que seria capaz de fazer um bem adestrado fornecedor de sabedoria religiosa.

Outra regra básica. Nada de definições. Nós poderíamos ficar aqui sentados até as vacas voltarem do pasto, o que no meu mundo não é uma metáfora, discutindo definições de palavras importantes. Mas, permita que eu lhe diga, não vamos chegar a parte alguma. Seria fácil reduzir a questão da existência de Deus a um problema de semântica. Mas já ultrapassamos essa fase. Estou feliz por meu nome ser Toby, pois isso prova a minha tese. Sou minha própria definição. Não sou “Estrela”, ou “Brasa”, ou “Corisco”, ou nenhum outro nome. Deixemos que, assim como eu, Deus seja a sua própria definição.

Tenho de lhe dizer uma coisa a respeito de Lily. Ela tem uma crina amarela. Estava justamente pensando nela.

Outra coisa: por favor, não use a expressão “religião organizada”. Já sei onde você quer chegar, e esse argumento só serve para universitários que querem ter alguma coisa para falar quando fumam maconha. Já deixamos essa discussão para trás há muito tempo.

Talvez você não tenha meios de compreender como é linda uma crina amarela. Bem, em Lily, isso é lindo. Às vezes, de noite, ela se esgueira rente à cerca, vem para perto de mim e suspira seu hálito quente no meu nariz. Esfrego minha cabeça na sua crina amarela, e o cheiro fica grudado em mim até de manhã. Ela tem também um cu fantástico. Ah, esqueci. Você é um ser humano e acha isso vulgar. Lily é a coisa mais parecida com Deus que já vi. Ela é corpórea e espiritual, e olha para mim, encosta-se em mim, balança a sua crina de modo que fica roçando em mim e, embora ela não saiba falar, nesses momentos é como se dissesse: “Toby”.

Lily... Toby... Toby... Lily...

Há certas pessoas que parecem saber que a resposta para a nossa questão é afirmativa. Isso as leva a querer envergar mantos, capas, túnicas e uns chapéus especiais, ou usar maquiagem bem pesada e pentear o cabelo muito alto. Outras pessoas parecem acreditar no contrário. Algumas pessoas se sentem bem com isso, mas outras podem ficar bem abatidas. Para tais pessoas, existe uma palavra especial, estrangeira, de uma vogal e várias consoantes nervosas: angst. Da qual também não saem anagramas.

Na certa você está pensando que, se não podemos usar lógica, se não podemos argumentar, se não podemos definir, como é que vamos chegar a uma resposta? Bem, se você fosse eu, não ficaria preocupado. Mas você tem receio das duas pernas que lhe faltam para ser como eu. Sugiro, pois, que faça o que eu faço: numa determinada noite, masque demoradamente um bom fardo de feno e um punhado de aveia. Retire seus antolhos e se deixe ficar num grande descampado, incline a cabeça para trás e contemple as estrelas. Você vai saber que existe um Deus.

Depois, um dia, quando as coisas não estiverem correndo muito bem para o seu lado, pare e reflita sobre a questão. Vai saber que não existe Deus nenhum. Para um cavalo, duas idéias contraditórias podem ser ambas verdadeiras, ao mesmo tempo. É isso o que me separa de você. É por isso que o cavalo não inventou o computador, mas inventou – e pouca gente sabe disso – o sofá. Uma vez que você permita que idéias incompatíveis coexistam em seu cérebro, estará no rumo certo para virar uma boa besta de carga. Aqui está uma pitada de juízo de cavalo, saído de minha própria cocheira: qualquer resposta que escolher, a qualquer momento, será a resposta correta. E se algum sabidinho elegante, de lábios contraídos, de cabelinho raspado rente, vier contestá-lo, é só dizer que aprendeu isso com Toby, o cavalo falante.

fonte: http://www.revistapiaui.com.br/

No escuro, todos são iguais - Silvia Curiati

Inácio não enxergava quase nada, sofria desde os 10 anos de idade com 16 graus de miopia.

Para as lentes dos óculos não ficarem tão grandes e desproporcionais sobre seu nariz aquilino, ele balanceava: parte dos graus em lentes de contato, e a outra parte no vidro anti-reflexo. Portanto, para Inácio, não havia nada mais comum que encontro às escuras.

Fez isso a vida toda – tirava os óculos, ia só de lente para não fazer feio. Ou melhor, não ficar feio.

Gelza sofria de cegueira noturna. Durante o dia vivia como um ser humano qualquer, comentando sobre os mosquitos que sobrevoavam sua mesa no escritório e as formiguinhas que insistiam em fazer fila indiana na pia de sua cozinha, todo ano, na primavera. Já à noite, era um desastre. A conta de luz vinha quilométrica devido à energia que gastava em sua casa para que tudo se mantivesse como se ainda fossem três da tarde.

Inácio era amigo de Lúcio, primo de Gelza.

Lúcio comentou com Inácio que tinha uma prima boazuda e solteira, não nesta ordem, nem nestes termos.

Inácio comentou com Lúcio que estava no queijão*, assim, nestes termos mesmo.

Provavelmente antes de Lúcio falar de Gelza.

Lúcio, que adorava provocar situações constrangedoras entre as pessoas, colocou Inácio e Gelza na sua janela do Messenger, para um bate-papo informal.

O casal de desconhecidos adicionou-se mutuamente e, dois dias depois, marcaram de sair para formalizar a pretensa amizade. Um jantar.

Inácio escolheu estrategicamente um restaurante romântico, à luz de velas. Com o ambiente escurecido sentia-se mais confortável e protegido, já que suas lentes espessas deixavam seus olhos levemente esbugalhados.

Gelza, quando entrou no lugar, surtou. Internamente, claro. Não queria aparentar esquizofrenia, além de seu outro defeito congênito.

O fato é: foi um legítimo encontro às escuras. Um desastre completo. Obviamente, depois de uns beijos e amassos, nunca mais nem se falaram.


*termo que denota a ausência de atividade sexual por um longo período. Apenas desconfia-se da razão de o nome ser o mesmo de algo que é praticamente leite podre, mas nada é comprovado cientificamente.

terça-feira, março 13, 2007

Aos que virão depois de nós - Bertolt Brecht

I

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.


Eu queria ser um sábio.

Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo que se tem para
viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

II

Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo
da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.

III

Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos, pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que vocês tiveram a sorte de escapar.

Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países que de
sapatos, desesperados!
quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para a
amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão.

Sessão da Tarde e cavalos falantes - Silvia Curiati

Incorpore um sotaque caipira forte, daquele que puxa os Rs com vontade. Agora diga em voz alta “éR, déRdi, rícher”.

Era exatamente o que eu ouvia quando o locutor, após a apresentação de um filme, concluía: “Versão brasileira, Herbert Richards”. Normalmente, estes eram os mais legais. Aqueles cuja versão brasileira era Álamo, com uma voz de mesmo timbre daquela do locutor que anunciava no SBT “Ghandiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii”, com aquele “i” grave e eterno, eram meio toscos.

Tenho um problema com alguns roteiros.

Não entendo até hoje o que leva pessoas a fazerem filmes com cavalos falando. Nada mais chato e imbecil. O cavalo era sempre lindo, a criança tinha voz de boba e a maior tensão era o fato de ele não ganhar uma corrida ou de ela não conseguir montá-lo. Quando a atração da Sessão da Tarde era um ser relinchante de rabo que conseguia formar frases melhores que as minhas, eu resolvia dar trabalho à minha mãe e aprontar alguma em casa. Porque é absolutamente inaceitável gostar de uma porcaria destas.

Meu negócio eram as aventuras, os leves suspenses, ou aquelas comédias tipo Jerry Lewis ou Day-Hudson. Coisas que não me tratassem como uma completa imbecil.

Aliás, meu negócio era mais simbólico que qualquer outra coisa. Sessão da Tarde é a representação mais pura do ócio. É o que te perguntam se você esta assistindo quando falta ao trabalho. Combina com Danette, brigadeiro, biscoitos recheados, pipoca. Também é um ícone da doença infecto-contagiosa, do trio canja-cobertor-termômetro. Me lembra imediatamente “pneumonia”, uma das três que tive.

E me lembra que há muito não invento uma boa desculpa para ver se existem novas gerações de cavalos falantes.

segunda-feira, março 12, 2007

Jogo: Bush Shoot Out


(clique aqui e lute contra o "terrorismo")

domingo, março 11, 2007

Charles Bukowski


"Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam até a sua morte"

sexta-feira, março 09, 2007

Capitão América é alvejado e morto

Lenda viva é assassinada nas escadarias da Corte Federal


NOVA YORK - Esta manhã, reportamos a tentativa de assassinato de um ex-super-herói. Agora vimos confirmar que a vítima foi identificada como Steve Rogers, também conhecido como Capitão América. Rogers foi dado como morto no Mercy Hospital, devido a ferimentos causados por tiros no ombro, peito e estômago.
Testemunhas afirmam que a primeira bala, que feriu Rogers no ombro, veio de um atirador localizado no topo de um dos edifícios próximos à Corte Federal. Diversos outros tiros foram disparados durante o conflito, atingindo Rogers no peito e estômago, mas testemunhas que presenciaram a cena, assim como os policiais que estavam escoltando Rogers, reportaram que somente um atirador disparou os tiros.
A identidade do(s) assassino(s), assim como a origem de outros tiros, ainda não foi revelada. Agentes da S.H.I.E.L.D., do FBI e da polícia local estão trabalhando juntos na investigação e vistoriando os edifícios dada área. Um porta-voz da S.H.I.E.L.D. não quis fazer comentários sobre o tiroteio, informando que mais detalhes serão conhecidos conforme avançarem as investigações.
Rogers, um veterano da 2.ª Guerra Mundial, e que foi dado como desaparecido com o fim do conflito, retornou à ação décadas depois e combateu nos primeiros tempos dos Vingadores. Esteve no front principal dos heróis americanos até recentemente, quando se opôs violentamente à lei do governo americano, o Superhero Registration Act. Como Capitão América, Rogers combateu as forças do ato pró-registro, até se render em Manhattan, ficando sob a custódia da S.H.I.E.L.D. Estava a caminho de sua audiência quando foi atingido essa manhã."

Para mais detalhes sobre o tiroteio, leia Captain America n.º 25. Para mais informações sobre o Capitão América e os acontecimentos, continue lendo o Clarim Diário.


(clique aqui e veja cenas fortes do corpo do herói)