sexta-feira, agosto 04, 2006

Memórias do subsolo - Fiódor Mikhálovitch Dostoiévski

Oh, se eu não fizesse nada unicamente por preguiça! Meu Deus, como eu me respeitaria então! Respeitar-me-ia justamente porque teria a capacidade de possuir em mim ao menos a preguiça; haveria, pelo menos, uma propriedade como que positiva, e da qual eu estaria certo. Pergunta: quem é? Resposta: um preguiçoso. Seria muito agradável ouvir isto a meu respeito. Significaria que fui definido positivamente; haveria o que dizer de mim. “Preguiçoso!” realmente é um título e uma nomeação, é uma carreira. Não brinqueis, é assim mesmo. Seria então, de direito, membro do primeiro dos clubes, e ocupar-me-ia apenas em me respeitar incessantemente. Conheci um cavalheiro que, a vida inteira, orgulhava-se com o fato de ser entendido em Laffitte. Ele considerava isso sua qualidade positiva e nunca duvidava de si. Morreu com a consciência não só tranqüila, mas triunfante até, e tinha toda a razão. E eu poderia, neste caso, escolher uma carreira para mim: seria preguiçoso e comilão, não do tipo comum, mas, por exemplo, dos que comungam com tudo o que é belo e sublime. Que tal? Há muito que isto me vem à mente. Este “belo e sublime” apertou-me com força a base do crânio aos quarenta anos; sim, foi aos quarenta, mas agora, oh, agora seria diferente! Imediatamente eu encontraria também o setor correspondente de atividade, ou, para ser mais exato: beber à saúde de tudo o que é belo e sublime. Eu me agarraria a toda oportunidade para, em primeiro lugar, verter uma lágrima na minha taça e, a seguir, esvaziá-la em intenção de tudo o que fosse belo e sublime; haveria de encontrar este belo e sublime até na mais ignóbil, na mais indiscutível das porcarias, e transformaria em belo e sublime tudo o que existisse no mundo. Tornar-me-ia lacrimejante como uma esponja molhada. Um pintor, por exemplo, pinta um quadro de Gué. Imediatamente, eu beberia à saúde do pintor que realizou o quadro de Gué, porque amo o que é belo e sublime. Um autor escreve “como apraz a cada um”; imediatamente eu beberia à saúde de “cada um”, porque amo tudo o que é “belo e sublime”. E exigiria por isto respeito a mim mesmo, e perseguiria quem não me tributasse este respeito. Vive-se com tranqüilidade, morre-se solenemente... É o encanto, um verdadeiro encanto! E eu criaria então um tal barrigão, armaria um tal queixo tríplice, elaboraria um tal nariz de sândalo que todo transeunte diria, olhando para mim: “Este é que é um figurão! Isto é que é verdadeiro e positivo!”. Seja o que quiserdes, mas é agradabilíssimo ouvir opiniões assim em nosso século de negação, meus senhores.
¡Recuerdos a mi corazón!

Um comentário:

Fernanda disse...

Genial!

Ese livro é denso e muito, muito bom... Dostoiévski 'é' gênio!

:)