terça-feira, maio 02, 2006

Dia de Cão - Bruno Braga

Era um daqueles dias em que Deus parece estar de bom humor. Não dormira bem por causa do maldito vizinho que insistia em fazer exercício de madrugada porque não tinha tempo durante o dia. Será que o desgraçado não dormia nunca? Quando, enfim, conseguiu dar uma cochilada, já surgiam os primeiros raios solares que entravam pela janela de seu quarto e iam direto para sua cama. Tentou, em vão, cobrir o rosto com o travesseiro, mas só conseguiu uma alergia ao maldito mofo da maldita fronha velha.
Quando já havia aceitado o fato de que não ia dormir, acabou conseguindo pregar um pouco os olhos, mas só o suficiente para não escutar o despertador e acordar atrasado para ir ao trabalho. Na pressa, é óbvio que feriu a gengiva escovando os dentes, escorregou durante o banho, machucando as costas, e feriu o pescoço fazendo a barba. O leite estava estragado e o pão cheio de fungos.
Ainda sem perder a postura, resolveu sair logo para o trabalho para evitar maiores danos dentro de casa. Ao chegar à porta, porém, notou que as chaves não se encontravam penduradas em seu lugar habitual. Sabendo que, pela bagunça em que se encontrava sua casa, perderia pelo menos o resto da manhã inteira para encontrar essas malditas chaves, saiu mesmo assim, deixando a porta destrancada. Ao colocar o pé fora de casa, como que dando o grand finalle à sua piadinha de mau gosto, o Senhor lá de cima mandou uma chuva daquelas de alagar piscina vazia.
Ainda tentando manter a calma, esperou, já ensopado, o maldito ônibus que demorava mais que o de costume. Depois de três motoristas que passaram direto, ignorando seu sinal e banhando de lama o que restava de sua dignidade, conseguiu, finalmente, subir no seu ônibus rumo ao trabalho que tanto odiava. Sentou atrás, onde não havia ninguém, porque, convenhamos, não estava num bom dia para conversas. O mesmo não se podia dizer da senhora que, dentre os dez assentos vazios, escolheu o ao seu lado para sentar. Era daquelas fanáticas religiosas que parecem entrar no ônibus só para converter alguém e não sossegam enquanto não cumprem sua missão divina. Ele, hoje, mais ateu do que nunca, se conteve a escutar e concordar com o sermão da senhora até seu local de descida.
Desceu do ônibus rangendo os dentes, mas respirou fundo e pensou que o pior já havia passado. Afinal, agora, estaria dentro do escritório que tanto odiava, com as pessoas que tanto odiava, mas estaria protegido da chuva e das velhinhas fanáticas que andam por aí. Caminhou ainda três quarteirões debaixo daquela que, mais tarde, seria anunciada como a maior chuva dos últimos vinte anos, para chegar ao seu local de trabalho. Estranhamente, a porta estava trancada. Como não tinha celular, foi em busca de um telefone público. O que encontrou estava ocupado por um cidadão com cara de poucos amigos que segurava uma lista com cerca de cinco telefones. Após quase uma hora de espera, conseguiu ligar para seu chefe para saber onde estavam todos.
- Mas ninguém te avisou? Hoje a empresa faz dez anos. Estão todos dispensados. Ainda bem que você ligou antes de sair de casa, hein? Ainda mais com essa chuva...
Nem chegou a ouvir a ultima frase. Disparou, agora, sim, gritando de raiva e praguejando contra tudo e contra todos por quem passava, correndo rumo à sua casa vazia do assalto que ocorrera durante a tarde, quando três ladrões, acidentalmente, erraram o local do assalto e deram de cara com uma porta destrancada.

6 comentários:

Paradoxo disse...

Nossa, e eu que pensava q não tinha sorte.
Continua de parabéns, um parabéns cada vez maior, Dr. Primo Loiro.

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