terça-feira, fevereiro 13, 2007

Cinema - Bruno Braga

Entrou no cinema. Contou onze pessoas dentro daquela sala imensa. O vazio da grande maioria das cadeiras tornava possível ouvir cada sussurro e cada movimento da escassa platéia. Pensou como era engraçado a relatividade das coisas. Aquelas onze pessoas dentro do seu quarto num domingo à noite assistindo um filme qualquer na sua televisão de 29 polegadas, em meio a tantos papéis e roupas espalhadas pelo chão, seriam uma multidão. Naquela sala de cinema, porém, passavam quase despercebidas.

Havia dois casais, um grupo de três amigas, dois moleques que não pareciam ter mais de doze anos e mais duas pessoas sozinhas, assim como ele. Não tinha o costume de ir só pro cinema, mas queria muito ver o filme e não estava a fim de encontrar ninguém naquele dia. Não agüentava mais as mesmas pessoas, as mesmas conversas. Queria o escuro do cinema, a solidão de sua cadeira em meio a pessoas completamente estranhas. Precisava de um momento assim, pra ele mesmo.

Sentou-se atrás, na penúltima fileira. Como ainda tinha alguns minutos antes que começassem os trailers, se entreteve observando os outros expectadores. Um dos casais se agarrava intensamente, enquanto o outro trocava carícias mais contidas e risadinhas que demonstravam maior intimidade. Enquanto fitava o grupo de três amigas que falava sobre algo relacionado a roupas, foi pego de surpresa por uma nova integrante na rasa platéia. Ela sentou duas cadeiras ao seu lado. Encarou-a, mas ela não parecia notar sua presença. Não entendia como uma garota tão linda podia estar num cinema sozinha. Não era do tipo que anda sem namorado por aí.

No final do filme, ainda a encarava. Ela ainda sem dar nem sinal de retorno a sua tentativa frustrada de troca de olhares. Acenderam novamente as luzes, voltou a vê-la, seu perfil enquanto ajeitava os cabelos. Achava que se pode dizer muito de uma mulher pelo jeito como ela mexe nos cabelos. Ela mexia exatamente como ele prevera, sutil, delicada, indiferente, como quem não nota a presença de mais ninguém ao seu redor, porém segura e confiante. Não tirava os olhos dela. Depois de longo período que não tem idéia quanto durou ela, com os cabelos presos, devolveu-lhe o olhar por um único e breve momento. Não demorou mais que três segundos para ela voltar seu rosto pro outro lado, levantar-se e sair do cinema. Se ela me olhasse mais uma vez, uma única vez, se ao menos nota-se minha presença, pensou. Nada aconteceu. E, assim como chegou, saiu sozinho do cinema.

Lá fora, ela se perguntava o que ele fazia sozinho no cinema. Estava nervosa, com medo de ter parecido muito oferecida tendo sentado a duas cadeiras dele, tendo tantas outras livres na sala quase vazia. Já o tinha notado na fila para comprar o ingresso, seu jeito apreensivo, meio sem graça de estar sozinho numa fila de cinema. Por isso não resistiu de sentar perto dele. Não queria parecer oferecida. Apenas sentia que ele precisava de companhia, de alguém novo, desconhecido. Uma estranha. Na saída, ainda lançou um último olhar, na esperança de que ele fosse ao seu encontro, a notasse, e ela deixasse de ser uma estranha para ele. Nada aconteceu.

(conheçam os belos textos del Chuco clicando
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2 comentários:

Las Aventuras del Chuco disse...

Fazia tempo que eu queria escrever algo digno de voltar a pintar pelas montanhas do parerga.
Apoio constante.
Abraço.

Paradoxo disse...

Cada vez melhor ...gostei muito mesmo :-)