quinta-feira, março 29, 2007

Os presentes de Alice - Cláudio Parreira

Alice. Mulherão essa Alice. E vivia querendo coisas:
- Compra um apartamento pra mim, bem?
Eu comprava. Porque ela, sorrindo, isso não tinha preço.

Alice era dada a excentricidades. Poucas, mas ainda assim:
- Compra a lua pra mim, bem?
Eu comprava. E colocava um punhado de estrelas no papel de presente.

Vez ou outra ela emburrava. Não de ficar burra, que ela nunca foi assim, mas emburrar de entristecer, vocês me entendem. Eu fazia caretas, alugava elefantes, tudo pra ela melhorar. Mas ela só melhorava daquele jeito:
- Compra o charme da Gisele Bündchen pra mim?
Eu comprava. Um exagero, concordo, Alice era charmosa o suficiente, mas fazer o quê?

* * *

Alice também era uma mulher de muito bom gosto. Sabia apreciar as coisas boas da vida, as belas coisas:
- Compra um Picasso, um Van Gogh e um Warhol pra mim, bem?
Eclética, como vocês puderam perceber. E eu, é claro, comprava.

* * *

Um dia Alice foi ao cinema e viu uma sereia no filme. Voltou da sessão radiante. E pediu:
- Eu quero uma sereia, bem!
Parti no dia seguinte numa expedição em busca da tal sereia. Fui encontrá-la 30 dias depois no mar gelado da Finlândia.
Quando entreguei o presente a Alice, ela desatou a chorar. Eu perguntei:
- Não é a sereia que você quer?
- É a sereia que eu queria - ela disse. - Mas agora não quero mais.
- O que é que você quer agora?
Alice enxugou as lágrimas e um sorriso brotou no seu rostinho lindo:
- Agora eu quero uma caravela, bem! Uma caravelinha!
Uma caravelinha. Como as caravelas deixaram de ser fabricadas há muito tempo, mandei fazer. Ficou uma beleza. Mas Alice só desembrulhou o presente. Havia um brilho estranho em seus olhos.
- E agora, o que é que você quer? - eu perguntei. - Pede.
- Eu não quero nada, bem. Não quero nada.

* * *

Mas a quietude durou pouco. Logo Alice estava pedindo de novo. E eu, pronto a atender. Quer dizer, mais ou menos.
- Bem, diz que me ama!
Esquisitice. Bem típico de uma mulher como ela. Não que o seu pedido fosse caro demais, longe disso. Não iria me custar um tostão. Mas eu senti que precisava manter a integridade:
- Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!
- Mitômano?
- É.
Ela me olhou com aquele olhar inteligente que só ela tem. E pediu:
- Me compra um dicionário, bem?

***

Depois disso Alice passou quatro anos deprimida, largadona, engordando no sofá francês do século XIX. Sem pedir nada.
Até que, numa bela manhã de carnaval, ela se levantou, emagreceu e pediu:
- Bem, eu quero amor!
Eu caminhei em direção a ela, dei-lhe um demorado beijo na testa e saí para a rua. Não voltei nunca mais. Seria muito doloroso explicar que tem coisas que o dinheiro não compra.

link: http://www.revistapiaui.com.br/2007/mar/concurso_vencedor.htm

Os falsos mendigos - Airton Monte

Não sei, na verdade não tenho a menor idéia se as demais pessoas vêm observando, em nosso perverso cenário citadino, um fato que para mim é inegável, pois se desenrola diante de meus olhos no aparentemente banal cotidiano. A cada dia que passa, torna-se cada vez mais numerosa e variegada a ruma de gente de todas as idades suplicando uma esmolinha pelo amor de Deus nas ruas da cidade. Sem falar naqueles que batem à porta de nossas casas, hora do almoço ou do jantar, dia útil ou feriado, a pedir um adjutório para os mais diversos fins.
Uns pedem um prato de comida. Outros uma ajudinha em dinheiro para enterrar um parente, comprar remédio, inteirar uma passagem de ônibus. Claro está que dentre essa desesperada legião de deserdados da vida, muitos há que estendem humilhantemente a mão sôfrega à caridade pública pela mais premente necessidade de sobrevivência. E não se deve esquecer que todo homem tem o sagrado direito à vida. Outrossim, também coexistem, de mistura com o bagaço humano da implacável moenda social, os indefectíveis espertalhões da mendicância.
São malandros profissionais que se fingem de esmoler para ganhar a vida na maciota, faturar uns bons trocados na moleza. Tais mendigos de araque tornaram-se exímios especialistas em usar e abusar da chantagem sentimental, espicaçando nosso complexo de culpa, tentando amolecer o coração dos transeuntes. Eu não consigo resistir ao impulso de meter a mão no bolso caçando níqueis ao me deparar com um olhar tristonho de uma criança de colo toda esmulambuda, rastejando pelo chão imundo ou crucificada por entre os braços esqueléticos da mãe.
E por saberem o quanto nos comove a miséria infantil exposta degradantemente na vitrine suja das calçadas, é que muitos sabidões ou sabidonas costumam usar os próprios filhos ou rebentos de aluguel como se fossem iscas vivas pra fisgar a suposta caridade dos passantes. Faça chuva ou sol, lá estão os pescadores com seus anzóis humanos nos cruzamentos mais movimentados. E todos nós, feito um cardume de peixes afogados num mar de remorsos, findamos por ser pescados. Que triste país o nosso, em que as crianças de rua só nos despertam dois únicos sentimentos: o medo e a piedade.

link: http://www.opovo.com.br/opovo/colunas/airtonmonte/

terça-feira, março 20, 2007

Deus existe? - Steve Martin


Deus existe? Essa velha pergunta simplesmente não quer sair de cena. Desde o início da história da humanidade, toda vez que alguém acha que tem a resposta, um outro vem logo contestá-lo. A questão persiste e agora repousa no éter, à espreita, para atacar estudantes universitários e, mais tarde, com os 30 anos de idade, bater em retirada, para emergir em festinhas de papo cabeça, e voltar de novo com força total nos “anos filosóficos”. Mas, antes de discutirmos essa questão complexa, permitam que eu me apresente. Sou Toby, o cavalo falante.

Ser um cavalo falante me deixa com tempo de sobra para ponderar acerca desses grandes temas. Ninguém me monta, porque simplesmente digo logo para descer. Assim, tenho muito tempo livre. Às vezes, à noite, para passar as horas, eu canto; às vezes, paquero a beldade que anda no pasto vizinho, a Lily. Às vezes, exercito meus poderes, o que é divertido. Neste preciso momento, de fato, você não lê isto. Apenas pensa que lê. Na verdade, você está ligando para o serviço telefônico do seu banco e transferindo todo o dinheiro para a minha conta.

Na maior parte do tempo, no entanto, assim como fazem muitos outros cavalos, tento fazer anagramas de cabeça. Quando você vê um cavalo parado num pasto, olhando para você, na realidade ele está tentando recombinar letras na cabeça: “amor, ramo, roma...” É coisa natural nos cavalos. A primeira coisa que faço com um problema grande como este, portanto, é repassá-lo em minha cabeça e recombinar as letras. “Deus...” Não sai muita coisa dessas letras, assim como do infecundo “existe”. Vencido o obstáculo desse pequeno exercício neurótico, estou apto a dar o passo seguinte.

Pergunte a si mesmo: preciso de fato saber a resposta para essa questão? Creio que, se for honesto consigo mesmo, você vai perceber que uma resposta do tipo sim-ou-não não iria, na verdade, mudar grande coisa na sua vida. Se bem que um não pode liberar um bocado de tempo, hoje despendido em cultos. Com efeito, não imagino que Deus seja de fato um entusiasta dos cultos. Você pode tomar por base este que lhe fala, Toby, o cavalo falante – ele é tão humilde quanto qualquer deus, e um simples obrigado é tudo o que espera.

Se me perguntar o que veio primeiro, a questão ou a crença, eu diria que a crença precedeu a questão. A questão não leva à crença; a questão leva à descrença. Por outro lado, a crença existe em quase todas as culturas humanas, se bem que às vezes a gente encontra uns povos que rezam para bonecos feitos de esterco. A crença não surge tão naturalmente em animais – o que faz de mim, um cavalo, um perfeito moderador objetivo.

Estabelecerei uma regra básica. Nada de discutir. Discutir é o que vivem fazendo na televisão, e o quê isso traz de bom? Uma grande risada de cavalo para a idéia humana de que a razão alguma vez mudou a mente de alguém. Eu poderia, se quisesse, defender a tese de que o céu é verde. E ganharia a discussão. Por quê? Porque pude estudar o bastante para deixar você encurralado a cada proposição, porque adquiri uma grande velocidade mental na controvérsia-do-céu-verde. Poderia fazer sua cabeça rodopiar com as voltas e as guinadas que eu lançaria sobre você. E sou um cavalo. Mesmo assim, poderia fazer isso. Imagine o que seria capaz de fazer um bem adestrado fornecedor de sabedoria religiosa.

Outra regra básica. Nada de definições. Nós poderíamos ficar aqui sentados até as vacas voltarem do pasto, o que no meu mundo não é uma metáfora, discutindo definições de palavras importantes. Mas, permita que eu lhe diga, não vamos chegar a parte alguma. Seria fácil reduzir a questão da existência de Deus a um problema de semântica. Mas já ultrapassamos essa fase. Estou feliz por meu nome ser Toby, pois isso prova a minha tese. Sou minha própria definição. Não sou “Estrela”, ou “Brasa”, ou “Corisco”, ou nenhum outro nome. Deixemos que, assim como eu, Deus seja a sua própria definição.

Tenho de lhe dizer uma coisa a respeito de Lily. Ela tem uma crina amarela. Estava justamente pensando nela.

Outra coisa: por favor, não use a expressão “religião organizada”. Já sei onde você quer chegar, e esse argumento só serve para universitários que querem ter alguma coisa para falar quando fumam maconha. Já deixamos essa discussão para trás há muito tempo.

Talvez você não tenha meios de compreender como é linda uma crina amarela. Bem, em Lily, isso é lindo. Às vezes, de noite, ela se esgueira rente à cerca, vem para perto de mim e suspira seu hálito quente no meu nariz. Esfrego minha cabeça na sua crina amarela, e o cheiro fica grudado em mim até de manhã. Ela tem também um cu fantástico. Ah, esqueci. Você é um ser humano e acha isso vulgar. Lily é a coisa mais parecida com Deus que já vi. Ela é corpórea e espiritual, e olha para mim, encosta-se em mim, balança a sua crina de modo que fica roçando em mim e, embora ela não saiba falar, nesses momentos é como se dissesse: “Toby”.

Lily... Toby... Toby... Lily...

Há certas pessoas que parecem saber que a resposta para a nossa questão é afirmativa. Isso as leva a querer envergar mantos, capas, túnicas e uns chapéus especiais, ou usar maquiagem bem pesada e pentear o cabelo muito alto. Outras pessoas parecem acreditar no contrário. Algumas pessoas se sentem bem com isso, mas outras podem ficar bem abatidas. Para tais pessoas, existe uma palavra especial, estrangeira, de uma vogal e várias consoantes nervosas: angst. Da qual também não saem anagramas.

Na certa você está pensando que, se não podemos usar lógica, se não podemos argumentar, se não podemos definir, como é que vamos chegar a uma resposta? Bem, se você fosse eu, não ficaria preocupado. Mas você tem receio das duas pernas que lhe faltam para ser como eu. Sugiro, pois, que faça o que eu faço: numa determinada noite, masque demoradamente um bom fardo de feno e um punhado de aveia. Retire seus antolhos e se deixe ficar num grande descampado, incline a cabeça para trás e contemple as estrelas. Você vai saber que existe um Deus.

Depois, um dia, quando as coisas não estiverem correndo muito bem para o seu lado, pare e reflita sobre a questão. Vai saber que não existe Deus nenhum. Para um cavalo, duas idéias contraditórias podem ser ambas verdadeiras, ao mesmo tempo. É isso o que me separa de você. É por isso que o cavalo não inventou o computador, mas inventou – e pouca gente sabe disso – o sofá. Uma vez que você permita que idéias incompatíveis coexistam em seu cérebro, estará no rumo certo para virar uma boa besta de carga. Aqui está uma pitada de juízo de cavalo, saído de minha própria cocheira: qualquer resposta que escolher, a qualquer momento, será a resposta correta. E se algum sabidinho elegante, de lábios contraídos, de cabelinho raspado rente, vier contestá-lo, é só dizer que aprendeu isso com Toby, o cavalo falante.

fonte: http://www.revistapiaui.com.br/

No escuro, todos são iguais - Silvia Curiati

Inácio não enxergava quase nada, sofria desde os 10 anos de idade com 16 graus de miopia.

Para as lentes dos óculos não ficarem tão grandes e desproporcionais sobre seu nariz aquilino, ele balanceava: parte dos graus em lentes de contato, e a outra parte no vidro anti-reflexo. Portanto, para Inácio, não havia nada mais comum que encontro às escuras.

Fez isso a vida toda – tirava os óculos, ia só de lente para não fazer feio. Ou melhor, não ficar feio.

Gelza sofria de cegueira noturna. Durante o dia vivia como um ser humano qualquer, comentando sobre os mosquitos que sobrevoavam sua mesa no escritório e as formiguinhas que insistiam em fazer fila indiana na pia de sua cozinha, todo ano, na primavera. Já à noite, era um desastre. A conta de luz vinha quilométrica devido à energia que gastava em sua casa para que tudo se mantivesse como se ainda fossem três da tarde.

Inácio era amigo de Lúcio, primo de Gelza.

Lúcio comentou com Inácio que tinha uma prima boazuda e solteira, não nesta ordem, nem nestes termos.

Inácio comentou com Lúcio que estava no queijão*, assim, nestes termos mesmo.

Provavelmente antes de Lúcio falar de Gelza.

Lúcio, que adorava provocar situações constrangedoras entre as pessoas, colocou Inácio e Gelza na sua janela do Messenger, para um bate-papo informal.

O casal de desconhecidos adicionou-se mutuamente e, dois dias depois, marcaram de sair para formalizar a pretensa amizade. Um jantar.

Inácio escolheu estrategicamente um restaurante romântico, à luz de velas. Com o ambiente escurecido sentia-se mais confortável e protegido, já que suas lentes espessas deixavam seus olhos levemente esbugalhados.

Gelza, quando entrou no lugar, surtou. Internamente, claro. Não queria aparentar esquizofrenia, além de seu outro defeito congênito.

O fato é: foi um legítimo encontro às escuras. Um desastre completo. Obviamente, depois de uns beijos e amassos, nunca mais nem se falaram.


*termo que denota a ausência de atividade sexual por um longo período. Apenas desconfia-se da razão de o nome ser o mesmo de algo que é praticamente leite podre, mas nada é comprovado cientificamente.

terça-feira, março 13, 2007

Aos que virão depois de nós - Bertolt Brecht

I

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.


Eu queria ser um sábio.

Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo que se tem para
viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

II

Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo
da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.

III

Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos, pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que vocês tiveram a sorte de escapar.

Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países que de
sapatos, desesperados!
quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para a
amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão.

Sessão da Tarde e cavalos falantes - Silvia Curiati

Incorpore um sotaque caipira forte, daquele que puxa os Rs com vontade. Agora diga em voz alta “éR, déRdi, rícher”.

Era exatamente o que eu ouvia quando o locutor, após a apresentação de um filme, concluía: “Versão brasileira, Herbert Richards”. Normalmente, estes eram os mais legais. Aqueles cuja versão brasileira era Álamo, com uma voz de mesmo timbre daquela do locutor que anunciava no SBT “Ghandiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii”, com aquele “i” grave e eterno, eram meio toscos.

Tenho um problema com alguns roteiros.

Não entendo até hoje o que leva pessoas a fazerem filmes com cavalos falando. Nada mais chato e imbecil. O cavalo era sempre lindo, a criança tinha voz de boba e a maior tensão era o fato de ele não ganhar uma corrida ou de ela não conseguir montá-lo. Quando a atração da Sessão da Tarde era um ser relinchante de rabo que conseguia formar frases melhores que as minhas, eu resolvia dar trabalho à minha mãe e aprontar alguma em casa. Porque é absolutamente inaceitável gostar de uma porcaria destas.

Meu negócio eram as aventuras, os leves suspenses, ou aquelas comédias tipo Jerry Lewis ou Day-Hudson. Coisas que não me tratassem como uma completa imbecil.

Aliás, meu negócio era mais simbólico que qualquer outra coisa. Sessão da Tarde é a representação mais pura do ócio. É o que te perguntam se você esta assistindo quando falta ao trabalho. Combina com Danette, brigadeiro, biscoitos recheados, pipoca. Também é um ícone da doença infecto-contagiosa, do trio canja-cobertor-termômetro. Me lembra imediatamente “pneumonia”, uma das três que tive.

E me lembra que há muito não invento uma boa desculpa para ver se existem novas gerações de cavalos falantes.

segunda-feira, março 12, 2007

Jogo: Bush Shoot Out


(clique aqui e lute contra o "terrorismo")

domingo, março 11, 2007

Charles Bukowski


"Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam até a sua morte"

sexta-feira, março 09, 2007

Capitão América é alvejado e morto

Lenda viva é assassinada nas escadarias da Corte Federal


NOVA YORK - Esta manhã, reportamos a tentativa de assassinato de um ex-super-herói. Agora vimos confirmar que a vítima foi identificada como Steve Rogers, também conhecido como Capitão América. Rogers foi dado como morto no Mercy Hospital, devido a ferimentos causados por tiros no ombro, peito e estômago.
Testemunhas afirmam que a primeira bala, que feriu Rogers no ombro, veio de um atirador localizado no topo de um dos edifícios próximos à Corte Federal. Diversos outros tiros foram disparados durante o conflito, atingindo Rogers no peito e estômago, mas testemunhas que presenciaram a cena, assim como os policiais que estavam escoltando Rogers, reportaram que somente um atirador disparou os tiros.
A identidade do(s) assassino(s), assim como a origem de outros tiros, ainda não foi revelada. Agentes da S.H.I.E.L.D., do FBI e da polícia local estão trabalhando juntos na investigação e vistoriando os edifícios dada área. Um porta-voz da S.H.I.E.L.D. não quis fazer comentários sobre o tiroteio, informando que mais detalhes serão conhecidos conforme avançarem as investigações.
Rogers, um veterano da 2.ª Guerra Mundial, e que foi dado como desaparecido com o fim do conflito, retornou à ação décadas depois e combateu nos primeiros tempos dos Vingadores. Esteve no front principal dos heróis americanos até recentemente, quando se opôs violentamente à lei do governo americano, o Superhero Registration Act. Como Capitão América, Rogers combateu as forças do ato pró-registro, até se render em Manhattan, ficando sob a custódia da S.H.I.E.L.D. Estava a caminho de sua audiência quando foi atingido essa manhã."

Para mais detalhes sobre o tiroteio, leia Captain America n.º 25. Para mais informações sobre o Capitão América e os acontecimentos, continue lendo o Clarim Diário.


(clique aqui e veja cenas fortes do corpo do herói)

segunda-feira, março 05, 2007

Sonho de voar - Silvia Curiati

Enquanto os balões amarelos não ficavam prontos, Liana se contorcia no tapete do seu quarto de tanto rir da voz de seu pai, que vez ou outra engolia o que chegaria perto de meio copo de gás hélio, se este pudesse ser medido como líquidos, para alegrar a menina.

Gordinha ativa, cabelos loirinhos sempre amarrados em chiquinhas, Liana era o tipo de menina que encantava a todos com sua esperteza. Muito inteligente, falava coisas que ninguém imaginaria ouvir saídas da boca de uma criança de 5 anos.

Sua meta era voar. Por isso, quando passou em frente ao ponto de venda de um empreendimento imobiliário onde um grupo de promotoras amarrava balões nos postes e notou um deles escapando rumo ao céu, voando inatingível, teve certeza que aquelas seriam suas asas.

"Amarelas", pediu ao pai, falando com dificuldade a letra R.

Ansiosa, esticou os bracinhos brancos abrindo as mãos, cheias de covinhas onde a pele era fofa, em direção ao pai, que entendeu o pedido e imediatamente amarrou dois balões amarelos em cada pulso da menina.

Os minutos seguintes foram pontuados por um descontentamento silencioso. Com os olhos úmidos, ela fitava suas asas amarelas e não compreendia a razão de estar em terra firme, ainda. Olhou para o pai e disse:

- Foi porque eu comi aquele chocolate antes do almoço e você disse que era porcaria que engorda? Fiquei pesada?

Com pena, o pai sorriu. Disse que esperasse um momento e resolveria seu problema.

Voltou com óculos de brinquedo, de lentes cobertas por um papel colorido. Colocou-os no rosto de Liana, que achou a brincadeira engraçada, mesmo sem dar muito crédito ao que viria pela frente por não ter idéia de como continuar. Enquanto ela esperava imóvel (porque crianças, quando são privadas de sua visão ficam estáticas, ainda que em posição de ataque, mantendo um sorriso maroto nos lábios entreabertos), o pai buscou sua velha bicicleta, aquela que já sofria com reumatismo e artrite, e colocou a cadeirinha da pequena onde encaixava. Ensaiou uma pedalada, funcionava.

Voltou triunfante, como só os pais que realizam os sonhos dos filhos entenderiam. Colocou a menina na cadeirinha, atou os cintos de segurança e saiu pedalando pelas ruas, o mais rápido que podia, enquanto gritava "abra as asas, bata as asinhas, para cima e para baixo!".

Liana mal cabia em si, sufocada com o ar no rosto e aquela sensação de liberdade e de meta alcançada que ela só viria a compreender mais velha, quando conseguisse vencer um jogo no colégio, conquistar o menino mais bonito da turma, passar no vestibular ou ser contratada pela empresa que desejasse.

De qualquer forma, aquele foi o momento mais feliz na vida dos dois.

quinta-feira, março 01, 2007

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Pantera - Walk




Cant you see Im easily bothered by persistence
One step from lashing out at you...
You want in to get under my skin
And call yourself a friend
Ive got more friends like you
What do I do?

(pre) is there no standard anymore?
What it takes, who I am, where Ive been
Belong
You cant be something youre not
Be yourself, by yourself
Stay away from me
A lesson learned in life
Known from the dawn of time

(chorus) respect, walk

Run your mouth when Im not around
Its easy to achieve
You cry to weak friends that sympathize
Can you hear the violins playing you song?
Those same friends tell me your every word

(pre)

(chorus)

Are you talking to me?
No way punk

Charles Bukowski: um pouco do velho safado








"Tudo bem, Deus, digamos que Você esteja mesmo aí. Foi Você que me colocou nesta. Você queria me testar. E que tal se eu O testasse? E que tal se eu dissesse que Você não está aí? Você já me expôs ao teste supremo me dando esses pais e estas espinhas. Acho que passei no Seu teste. Sou mais durão do que Você. Se Você tivesse coragem de descer aqui, agora, eu cuspiria na Sua cara, se é que Você tem cara. E Você caga? O padre nunca respondeu a essa questão. Ele nos disse para não duvidarmos. Duvidar do quê? Acho que você já passou doslimites comigo, por isso, desafio-O a descer até aqui para que eu possa aplicar o meu teste em Você!Esperei. Nada. Esperei por Deus. Esperei infinitamente. Acho que peguei no sono.
Deus é só mais um bundão!"

Brujeria - Revolución



Oygan o se chingan, no sean pendejos
Gobierno de Mexico ya vale madre
P.R.I. manda todo, son comunistas
Indios y pobres, no tienen chanzas
Donde estan todos los topos
En la selva ya estan
En la ciudad hay que comenzar
Hay que meterse en cada rincon
Cabrones del P.R.I. - comunismo
Despierten todos - revolucian
Con machetes - armanse
Ejercitos indios - zapatistas
Comandante Marcos - mandanos
Cubre tu cara - subterraneo
Son topos guerrilleros - revolucian
Son topos locos!!! - revolucian
Viva Zapata, Viva Chiapas
Viva Mexico, Viva la revolucian
No sean coyones - haganse hombres
Ya empezaron - hay que acabarlo
Quieren ser ratas or quieren ser hombres
Si no pa' ti - por tus hijos
Comunismo, satanismo, P.R.I.- es lo mismo

Gaiolas e asas - Rubem Alves

Os pensamentos me chegam de forma inesperada, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que Lichtenberg, William Blake e Nietzsche frequentemente eram também atacados por eles. Digo "atacados" porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, esse aforismo me atacou: "Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas".


Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-las para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.

Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças... E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações... Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra - e a domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres.

Sentir alegria ao sair de casa para ir à escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que as fecha com os tigres.

Nos tempos de minha infância, eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas próprias arapucas, punha fubá dentro e ficava escondido, esperando... O pobre passarinho vinha, atraído pelo fubá. Ia comendo, entrava na arapuca e pisava no poleiro. E era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a mão na arapuca, pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O pássaro se lançava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as garras e enfiava o bico entre os vãos. Na inútil tentativa de ganhar de novo o espaço, ficava ensanguentado... Sempre me lembro com tristeza da minha crueldade infantil.

Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão gaiolas? Vão me falar sobre a necessidade das escolas dizendo que os adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, que todos, tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor. Mas eu pergunto: nossas escolas estão dando uma boa educação? O que é uma boa educação?

O que os burocratas pressupõe sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.

Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Você sabe o que é "dígrafo"? E os usos da partícula "se"? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante"? Qual a utilidade da palavra "mesóclise"? Pobres professoras, também engaioladas... São obrigadas a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata sua experiência com as escolas: "Fui forçado (!) a estudar o que os professores haviam decidido que eu deveria aprender. E aprender à sua maneira".

O sujeito da educação é o corpo, porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que ela, a inteligência, era "ferramenta" e "brinquedo" do corpo. Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender "ferramentas", aprender "brinquedos".

"Ferramentas" são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia-a-dia. "Brinquedos" são todas aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma.

Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo da educação. Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. Ferramentas me permitem voar pelos caminhos do mundo.

Brinquedos me permitem voar pelos caminhos da alma. Quem está aprendendo ferramentas e brinquedos está aprendendo liberdade, não fica violento. Fica alegre, vendo as asas crescer... Assim todo professor, ao ensinar, teria de se perguntar: "Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo?" Se não for, é melhor deixar de lado.

As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada. Não me dizem se são gaiolas ou asas. Mas eu sei que há professores que amam o vôo dos seus alunos.

Há esperança...

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Paranoid Android - Radiohead



Please could you stop the noise, I'm trying get some rest
From all the unborn chicken voices in my head
What's that...? (I may be paranoid, but not an android)
What's that...? (I may be paranoid, but not an android)

When I am king, you will be first against the wall
with your opinion which is of no consequence at all
What's that...? (I may be paranoid, but no android)
What's that...? (I may be paranoid, but no android)

Ambition makes you look pretty ugly
Kicking, squealing gucci little piggy
You don't remember
You don't remember
Why don't you remember my name?
Off with his head, man
Off with his head, man
Why don't you remember my name? I guess he does...

Rain down, rain down
Come on rain down on me
From a great height
From a great height... height...
Rain down, rain down
Come on rain down on me
From a great height
From a great height... height...
Rain down, rain down
Come on rain down on me

That's it sir
You're leaving
The crackle of pigskin
The dust and the screaming
The yuppies networking
The panic, the vomit
The panic, the vomit
God loves his children, God loves his children, yeah!

(tradução)

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Cinema - Bruno Braga

Entrou no cinema. Contou onze pessoas dentro daquela sala imensa. O vazio da grande maioria das cadeiras tornava possível ouvir cada sussurro e cada movimento da escassa platéia. Pensou como era engraçado a relatividade das coisas. Aquelas onze pessoas dentro do seu quarto num domingo à noite assistindo um filme qualquer na sua televisão de 29 polegadas, em meio a tantos papéis e roupas espalhadas pelo chão, seriam uma multidão. Naquela sala de cinema, porém, passavam quase despercebidas.

Havia dois casais, um grupo de três amigas, dois moleques que não pareciam ter mais de doze anos e mais duas pessoas sozinhas, assim como ele. Não tinha o costume de ir só pro cinema, mas queria muito ver o filme e não estava a fim de encontrar ninguém naquele dia. Não agüentava mais as mesmas pessoas, as mesmas conversas. Queria o escuro do cinema, a solidão de sua cadeira em meio a pessoas completamente estranhas. Precisava de um momento assim, pra ele mesmo.

Sentou-se atrás, na penúltima fileira. Como ainda tinha alguns minutos antes que começassem os trailers, se entreteve observando os outros expectadores. Um dos casais se agarrava intensamente, enquanto o outro trocava carícias mais contidas e risadinhas que demonstravam maior intimidade. Enquanto fitava o grupo de três amigas que falava sobre algo relacionado a roupas, foi pego de surpresa por uma nova integrante na rasa platéia. Ela sentou duas cadeiras ao seu lado. Encarou-a, mas ela não parecia notar sua presença. Não entendia como uma garota tão linda podia estar num cinema sozinha. Não era do tipo que anda sem namorado por aí.

No final do filme, ainda a encarava. Ela ainda sem dar nem sinal de retorno a sua tentativa frustrada de troca de olhares. Acenderam novamente as luzes, voltou a vê-la, seu perfil enquanto ajeitava os cabelos. Achava que se pode dizer muito de uma mulher pelo jeito como ela mexe nos cabelos. Ela mexia exatamente como ele prevera, sutil, delicada, indiferente, como quem não nota a presença de mais ninguém ao seu redor, porém segura e confiante. Não tirava os olhos dela. Depois de longo período que não tem idéia quanto durou ela, com os cabelos presos, devolveu-lhe o olhar por um único e breve momento. Não demorou mais que três segundos para ela voltar seu rosto pro outro lado, levantar-se e sair do cinema. Se ela me olhasse mais uma vez, uma única vez, se ao menos nota-se minha presença, pensou. Nada aconteceu. E, assim como chegou, saiu sozinho do cinema.

Lá fora, ela se perguntava o que ele fazia sozinho no cinema. Estava nervosa, com medo de ter parecido muito oferecida tendo sentado a duas cadeiras dele, tendo tantas outras livres na sala quase vazia. Já o tinha notado na fila para comprar o ingresso, seu jeito apreensivo, meio sem graça de estar sozinho numa fila de cinema. Por isso não resistiu de sentar perto dele. Não queria parecer oferecida. Apenas sentia que ele precisava de companhia, de alguém novo, desconhecido. Uma estranha. Na saída, ainda lançou um último olhar, na esperança de que ele fosse ao seu encontro, a notasse, e ela deixasse de ser uma estranha para ele. Nada aconteceu.

(conheçam os belos textos del Chuco clicando
aqui)

domingo, fevereiro 11, 2007

Buena Vista Social Club



De Alto Cedro voy para Macané
Llego al Puerto voy para Mayarí

El cariño que te tengo
Yo no lo puedo negar
Se me sale la babita
Yo no lo puedo evitar

Cuando Juanica y Chan Chan
En el mar cernían arena
Como sacudía el 'jibe'
A Chan Chan le daba pena

Limpia el camino de pajas
Que yo me quiero sentar
En aquel tronco que veo
Y así no puedo llegar

De Alto Cedro voy para Macané
Llego al Puerto voy para Mayarí

"Durante muitos anos, artistas cubanos da vanguarda ficaram no ostracismo; muitos deles sem tocar seus instrumentos por mais de 10 anos.
O produtor musical Ry Cooder, com a expectativa de encontrar artistas cubanos e reuni-los para a gravação de um disco, viajou até Havana em 1996. Entre os mais famosos, destacam-se Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Omara Portuondo, Eliades Ochoa e Rubén Gonzáles.
O título do disco, Buena Vista Social Club, é uma referência a uma antiga casa de shows cubana, que havia deixado de existir por volta dos anos 50.
O documentário mostra, a partir do retorno de Ry Cooder a Havana, em 1998, as histórias de vida dos músicos cubanos envolvidos no projeto e como o sucesso do disco Buena Vista Social Club, premiado com um Grammy, que se reflete nas apresentações dos artistas em Amsterdam (HOL) e no Carnegie Hall, em Nova Iorque (EUA), transformou a vida dessas pessoas."

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Chico Buarque - Construção



Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado