terça-feira, fevereiro 13, 2007

Cinema - Bruno Braga

Entrou no cinema. Contou onze pessoas dentro daquela sala imensa. O vazio da grande maioria das cadeiras tornava possível ouvir cada sussurro e cada movimento da escassa platéia. Pensou como era engraçado a relatividade das coisas. Aquelas onze pessoas dentro do seu quarto num domingo à noite assistindo um filme qualquer na sua televisão de 29 polegadas, em meio a tantos papéis e roupas espalhadas pelo chão, seriam uma multidão. Naquela sala de cinema, porém, passavam quase despercebidas.

Havia dois casais, um grupo de três amigas, dois moleques que não pareciam ter mais de doze anos e mais duas pessoas sozinhas, assim como ele. Não tinha o costume de ir só pro cinema, mas queria muito ver o filme e não estava a fim de encontrar ninguém naquele dia. Não agüentava mais as mesmas pessoas, as mesmas conversas. Queria o escuro do cinema, a solidão de sua cadeira em meio a pessoas completamente estranhas. Precisava de um momento assim, pra ele mesmo.

Sentou-se atrás, na penúltima fileira. Como ainda tinha alguns minutos antes que começassem os trailers, se entreteve observando os outros expectadores. Um dos casais se agarrava intensamente, enquanto o outro trocava carícias mais contidas e risadinhas que demonstravam maior intimidade. Enquanto fitava o grupo de três amigas que falava sobre algo relacionado a roupas, foi pego de surpresa por uma nova integrante na rasa platéia. Ela sentou duas cadeiras ao seu lado. Encarou-a, mas ela não parecia notar sua presença. Não entendia como uma garota tão linda podia estar num cinema sozinha. Não era do tipo que anda sem namorado por aí.

No final do filme, ainda a encarava. Ela ainda sem dar nem sinal de retorno a sua tentativa frustrada de troca de olhares. Acenderam novamente as luzes, voltou a vê-la, seu perfil enquanto ajeitava os cabelos. Achava que se pode dizer muito de uma mulher pelo jeito como ela mexe nos cabelos. Ela mexia exatamente como ele prevera, sutil, delicada, indiferente, como quem não nota a presença de mais ninguém ao seu redor, porém segura e confiante. Não tirava os olhos dela. Depois de longo período que não tem idéia quanto durou ela, com os cabelos presos, devolveu-lhe o olhar por um único e breve momento. Não demorou mais que três segundos para ela voltar seu rosto pro outro lado, levantar-se e sair do cinema. Se ela me olhasse mais uma vez, uma única vez, se ao menos nota-se minha presença, pensou. Nada aconteceu. E, assim como chegou, saiu sozinho do cinema.

Lá fora, ela se perguntava o que ele fazia sozinho no cinema. Estava nervosa, com medo de ter parecido muito oferecida tendo sentado a duas cadeiras dele, tendo tantas outras livres na sala quase vazia. Já o tinha notado na fila para comprar o ingresso, seu jeito apreensivo, meio sem graça de estar sozinho numa fila de cinema. Por isso não resistiu de sentar perto dele. Não queria parecer oferecida. Apenas sentia que ele precisava de companhia, de alguém novo, desconhecido. Uma estranha. Na saída, ainda lançou um último olhar, na esperança de que ele fosse ao seu encontro, a notasse, e ela deixasse de ser uma estranha para ele. Nada aconteceu.

(conheçam os belos textos del Chuco clicando
aqui)

domingo, fevereiro 11, 2007

Buena Vista Social Club



De Alto Cedro voy para Macané
Llego al Puerto voy para Mayarí

El cariño que te tengo
Yo no lo puedo negar
Se me sale la babita
Yo no lo puedo evitar

Cuando Juanica y Chan Chan
En el mar cernían arena
Como sacudía el 'jibe'
A Chan Chan le daba pena

Limpia el camino de pajas
Que yo me quiero sentar
En aquel tronco que veo
Y así no puedo llegar

De Alto Cedro voy para Macané
Llego al Puerto voy para Mayarí

"Durante muitos anos, artistas cubanos da vanguarda ficaram no ostracismo; muitos deles sem tocar seus instrumentos por mais de 10 anos.
O produtor musical Ry Cooder, com a expectativa de encontrar artistas cubanos e reuni-los para a gravação de um disco, viajou até Havana em 1996. Entre os mais famosos, destacam-se Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Omara Portuondo, Eliades Ochoa e Rubén Gonzáles.
O título do disco, Buena Vista Social Club, é uma referência a uma antiga casa de shows cubana, que havia deixado de existir por volta dos anos 50.
O documentário mostra, a partir do retorno de Ry Cooder a Havana, em 1998, as histórias de vida dos músicos cubanos envolvidos no projeto e como o sucesso do disco Buena Vista Social Club, premiado com um Grammy, que se reflete nas apresentações dos artistas em Amsterdam (HOL) e no Carnegie Hall, em Nova Iorque (EUA), transformou a vida dessas pessoas."

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Chico Buarque - Construção



Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Monoface


(clique aqui e faça seu próprio rosto)

Propaganda da Axe


(clique aqui e use a pena da melhor forma)

Diferença entre homem e mulher no banho


How To Shower - Men & Women - video powered by Metacafe

Funny Sponge

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Amor e Loucura, juntos - Silvia Curiati

A Loucura resolveu convidar os amigos para tomar um café em sua casa.
Todos os convidados foram. Após tomarem café a Loucura propôs:
- Vamos brincar de esconde-esconde?
Todos aceitaram, menos o Medo e a Preguiça.
- 1, 2, 3, ... - a Loucura começou a contar.
A Pressa se escondeu primeiro, em um lugar qualquer.
A Timidez, tímida como sempre, escondeu-se na copa de uma árvore.
A Alegria correu para o meio do jardim.
Já a Tristeza começou a chorar, pois não achava um local apropriado para se esconder.
A Inveja acompanhou o Triunfo e se escondeu perto dele, debaixo de uma pedra.
O Desespero ficou desesperado ao ver que a Loucura já estava no noventa e nove ...
- Cem, gritou a Loucura. Vou começar a procurar.
A primeira a aparecer foi a Curiosidade, já que não agüentava mais.
Ao olhar para o lado, a Loucura viu a Dúvida em cima de uma cerca sem saber em qual dos lados iria se esconder.
E assim foram aparecendo a Alegria, a Tristeza, a Timidez...
Quando estavam todos reunidos, a Curiosidade perguntou: - Onde está o Amor?
Ninguém o tinha visto.
A Loucura começou a procurá-lo. Procurou em cima da montanha, nos rios, debaixo das pedras e nada do Amor aparecer.
Procurando por todos os lados a Loucura viu uma roseira, pegou um pauzinho e começou a vasculhar entre os galhos, quando de repente ouviu um grito.
Era o Amor, que havia furado o olho com espinho. A Loucura não sabia o que fazer. Pediu desculpas, implorou pelo perdão do Amor e até prometeu seguir-lhe para sempre.
O Amor aceitou as desculpas.
Desde então, o Amor é cego e a Loucura sempre o acompanha...

domingo, fevereiro 04, 2007

Coldplay - Speed of Sound


How long, before I get in?
Before it starts, before I begin?
How long before you decide?
before I know what it feels like?

Where to, where do I go?
If you never try, then you'll never know
How long do I have to climb?
Up on the side of this mountain of mine?

Look up, I look up at night
Planets are moving at the speed of light
Climb up, up in the trees
Every chance you get is a chance you seize
How long am I gonna stand
With my head stuck under the sand?
I'll start before I can stop
Before I see things the right way up

All that noise and
all that sound
All those places I got found
And birds go flying at the speed of sound
To show you how it all began
Birds came flying from the underground
If you could see it, then you'll understand

Ideas that you'll never find
All the inventors could never design
The buildings that you put up
Japan and China all lit up
A sign that I couldn't read
Or the light that I couldn't see
Some things you have to believe
But others are puzzles, puzzling me

All that noise and all that sound
All those places I got found
And birds go flying at the speed of sound
To show you how it all began
Birds came flying from the underground
If you could see it, then you'd understand
Ah when you see it, then you'll understand

All those signs I knew what they meant
Some things you can't invent
Some get made and some get sent
And birds go flying at the speed of sound
To show you how it all began
Birds came flying from the underground
If you could see it, then you'd understand
Ah when you see it, then you'll understand

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Os melhores vídeos dos Beatles


(clique aqui pra entrar no site. Lá, é só escolher o vídeo)

Como dirigir um tanque no Iraque

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Animação: Flashback


(clique aqui e curta a animação)

O amor deixa muito a desejar - Arnaldo Jabor

A Rita Lee fez uma música com a letra tirada de um artigo que escrevi, sobre amor e sexo.
A música é linda, estou emocionado, não mereço tão subida honra, quem sou eu, quase enxuguei uma furtiva lágrima com minha "gélida manina" por estar num disco, girando na vitrola sem parar com Rita, aquela hippie florida com consciência crítica, aquela hippie paródica, aquela mulher divinamente dividida, de noiva mutante ou de cartola e cabelo vermelho que, em 67, acabou com a caretice de Sampa e de suas lindas "minas" pálidas.
A música veio mesmo a calhar, pois ando com uma fome de arte, ando com saudade da beleza, ando com saudade de tudo, saudade de alguma delicadeza, paz, pois já não agüento mais ser apenas uma esponja absorvendo e comentando os bodes pretos que os políticos produzem no Brasil e o Bush lá fora. Ando meio desesperançado, mas essa canção de Rita trouxe de volta a minha mais antiga lembrança de amor. Isso mesmo: a canção me trouxe uma cena que, há mais de 50 anos, me volta sempre. Sempre achei que esse primeiro momento foi tão tênue, tão fugaz que não merecia narração. Mas, vou tentar.
Eu devia ter uns 6 anos, no máximo. Foi meu primeiro dia de aula no colégio, lá no Meier, onde minha mãe me levou, pela Rua 24 de Maio, coberta de folhas de mangueira que o vento derrubava. Fiquei sozinho, desamparado, sem pai nem mãe no colégio desconhecido. No pátio do recreio, crianças corriam. Uma bola de borracha voou em minha direção e bateu em meu peito. Olhei e vi uma menina morena, de tranças, com olhos negros, bem perto, me pedindo a bola e, nesse segundo, eu me apaixonei. Lembro-me de que seu queixo tinha um pequeno machucado, como um arranhão com mercúrio-cromo, lembro-me que ela tinha um nariz arrebitado, insolente e que, num lampejo, eu senti um tremor desconhecido, logo interrompido pelo jogo, pela bola que eu devolvi, pelos gritos e correria do recreio. Ela deve ter me olhado no fundo dos olhos por uns três segundos mas, até hoje, eu me lembro exatamente de sua expressão afogueada e vi que ela sentira também algum sinal no corpo, alguma informação do seu destino sexual de fêmea, alguma manifestação da matéria, alguma mensagem do DNA. Recordando minha impressão de menino, tenho certeza de que nossos olhos viram a mesma coisa, um no outro. Senti que eu fazia parte de um magnetismo da natureza que me envolvia, que envolvia a menina, que alguma coisa vibrava entre nós e senti que eu tinha um destino ligado àquele tipo de ser, gente que usava trança, que ria com dentes brancos e lábios vermelhos, que era diferente de mim e entendi vagamente que, sem aquela diferença, eu não me completaria. Ela voltou correndo para o jogo, vi suas pernas correndo e ela se virando com uma última olhada.
Misteriosamente, nunca mais a encontrei naquela escola. Lembro-me que me lembrei dela quando vi aquele filme Love Story, não pelo medíocre filme, mas pelo rosto de Ali McGraw, que era exatamente o rosto que vivia na minha memória. Recordo também, com estranheza, que meu sentimento infantil foi de "impossibilidade"; aquele rosto me pareceu maravilhoso e impossível de ser atingido inteiramente, foi um instante mágico ao mesmo tempo de descoberta e de perda. Escrevendo agora, percebo que aquela sensação de profundo "sentido" que tive aos 6 anos pode ter marcado minha maneira de ser e de amar pelos tempos que viriam. Senti a presença de algo belíssimo e inapreensível que, hoje, velho de guerra, arrisco dizer que talvez seja essa a marca do amor: ser impossível. Calma, pessoal, claro que o amor existe, nem eu sou um masoquista de livro, mas a marca do sublime, o momento em que o impossível parece possível, quando o impalpável fica compreensível, esse instante se repetiu no futuro por minha vida, levando-me para um trem-fantasma de alegrias e dores.
Amar é parecido com sofrer - Luís Melodia escreveu, não foi? Machado de Assis toca nisso na súbita consciência do amor entre Bentinho e Capitu:
"Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela boca."
Isso: felicidade e medo, a sensação de tocar por instantes um mistério sempre movente, como um fotograma que pára por um instante e logo se move na continuação do filme. Sempre senti isso em cada visão de mulheres que amei: um rosto se erguendo da areia da praia, uma mulher fingindo não me ver, mas vendo-me de costas num escritório do Rio... São momentos em que a "máquina da vida" parece se explicar, como se fosse uma lembrança do futuro, como se eu me lembrasse ali, do que iria viver.
Esses frêmitos de amor acontecem quando o "eu" cessa, por brevíssimos instantes, e deixamos o outro ser o que é em sua total solidão. Vemos um gesto frágil, um cabelo molhado, um rosto dormindo, e isso desperta em nós uma espécie de "compaixão" pelo nosso próprio desamparo, entrevisto no outro.
A cultura americana está criando um "desencantamento" insuportável na vida social. Vejam a arte tratada como algo desnecessário, sem lugar, vejam as mulheres nuas amontoadas na internet. Andamos com fome de beleza em tudo, na vida, na política, no sexo; por isso, o amor é uma ilusão sem a qual não podemos viver. Todas essas tênues considerações, essas lembranças de lembranças, essa tentativa de capturar lampejos tão antigos, com risco de ser piegas, tudo isso me veio à cabeça pela emoção de me ver subitamente numa música, parceiro de Rita Lee, "lovely Rita", a mais completa tradução de São Paulo, essa cidade cheia de famintos de amor.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Jogo: World Domination Battle


(Clique aqui e jogue com os clássicos)

sábado, janeiro 20, 2007

Curta: Tomek Baginski - The Cathedral

Curta-metragem: Balance

Animação: Kiwi - O Preço da Liberdade

Bobagens românticas - Airton Monte

Quando eu era jovem e um rebelde sem causa, andava pelos bares de Fortaleza como um fantasma, mergulhado no silêncio cúmplice da madrugada. Diante de cada porta, meus sentidos estavam despertos e atentos aos mínimos detalhes. Já achava que beber sozinho era um acontecimento triste. Eu via as pessoas como crianças desesperadas, desprotegidas na sua solidão compartilhada. Só assim, pensava, eu conseguia amá-las, mas não era amor que eu sentia, era piedade. Talvez de mim mesmo, de minha suposta generosidade. Como era tolo quando era jovem.
Por vezes, me dava um pavor juvenil pela suprema tolice de pensar que podia jogar o jogo da vida sem comprometer-me. Eu tentava ver as pessoas como se elas fizessem parte de um jardim zoológico, eu, é claro, ficava do lado de fora das jaulas e observava as pessoas com olhinhos cruéis de um taxonomista. De madrugada, numa cidade então sem muitos perigos, caminhava pelas ruas desertas, esperando que enfim amanhecesse. Vinha uma vontade maluca de acordar as pessoas do marasmo em que eu acreditava que viviam.
Era-me impossível amá-las, não a tais pessoas sujas, frias, desconhecedoras da beleza e impregnadas do cheiro da morte, enquanto dentro de mim novas palavras ferviam, novas idéias se agitavam e afloravam-me novas descobertas a respeito de mim, do mundo. Eu apenas sofria de tristeza como outros sofriam do fígado. E fingia que não tinha medo e zombava da minha solidão sem perceber que estava cada vez mais só, mais sofrido, mais amargo, mais aprisionado a meus fantasmas. Nem desconfiava ser o pior de meus inimigos, porque o mais solerte.
Um pouco depois, já me cansava em ser um rebelde sem causa, queria ser poeta. E que ser poeta não era fácil nem difícil, e se o fosse, jamais conseguiria deixar de sê-lo. E caminhar sobre o gume de uma faca e por incrível que pareça, cortar realmente os pés e mesmo assim, mutilado, prosseguir, embora a alma fosse se tornando um mapa-mundi de cicatrizes. Nunca acreditei no mito que faz dos poetas elefantes moribundos em busca de seu inefável cemitério. Ser poeta é uma coisa à toa. Qualquer um pode ser, desde que o seja.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

O homem que não tinha nada - Silvia Curiati

Ele não tinha nada. Não tinha casa, não tinha carro, não tinha filhos nem mulher, não tinha mãe, nunca teve pai, não tinha idéias, vontades, aspirações, curiosidades, desejos, metas, medos.
Era a sua maneira livre de levar a vida, sem amarras, que o fazia sorrir todas as manhãs no elevador, como se fosse o homem mais feliz daquele lugar. Às vezes, quando eu chegava a pé depois de uma caminhada, o via vigiando os arredores. E sempre quando terminava, dava tapinhas no muro do prédio como fazemos nas costas de um amigo quando queremos dizer "é isso aí", ou "você vai longe". Aquele gesto que transmite ao mesmo tempo carinho, orgulho e estímulo.
Zelou por alguns anos ainda, depois que o conheci. Quando faleceu, limparam o seu quartinho modesto e lá encontraram uma única posse, pequena, que foi enterrada ao lado da árvore mais próxima à guarita, para que ninguém mais conhecesse o segredo de sua alegria.

Vencedores do Globo de Ouro 2006

CINEMA

Melhor Filme - Drama
Babel
Os Infiltrados
Bobby
Pecados Íntimos
The Queen

Melhor Atriz - Drama
Helen Mirren - The Queen
Penélope Cruz - Volver
Judi Dench - Notes on a Scandal
Maggie Gyllenhaal - Sherrybaby
Kate Winslet - Pecados Íntimos

Melhor Ator - Drama
Forest Whitaker - O último rei da Escócia
Leonardo DiCaprio - Diamante de Sangue
Leonardo DiCaprio - Os Infiltrados
Peter O'Toole - Venus
Will Smith - À procura da Felicidade

Melhor Filme - Comédia ou Musical
Dreamgirls - Em busca de um sonho
Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan
O Diabo veste Prada
Pequena Miss Sunshine
Obrigado por Fumar

Melhor Atriz - Comédia ou Musical
Meryl Streep - O Diabo veste Prada
Annette Bening - Correndo com tesouras
Toni Collette - Pequena Miss Sunshine
Beyoncé Knowles - Dreamgirls - Em busca de um sonho
Renée Zellweger - Senhorita Potter

Melhor Ator - Comédia ou Musical
Sacha Baron Cohen - Borat
Johnny Depp - Piratas do Caribe - O Baú da Morte
Aaron Eckhart - Obrigado por Fumar
Chiwetel Ejiofor - Kinky Boots
Will Ferrell - Mais Estranho que a Ficção

Melhor Animação
Carros
Happy Feet - O Pingüim
A Casa Monstro

Melhor Filme em Língua Estrangeira
Cartas de Iwo Jima (EUA/Japão)
Apocalypto (EUA)
The Lives of Others (Alemanha)
O Labirinto do Fauno (México)
Volver (Espanha)

Melhor Atriz Coadjuvante
Jennifer Hudson - Dreamgirls - Em Busca de um Sonho
Adriana Barraza - Babel
Cate Blanchett - Notes on a Scandal
Emily Blunt - O Diabo veste Prada
Rinko Kikuchi - Babel

Melhor Ator Coadjuvante
Eddie Murphy - Dreamgirls - Em Busca de um Sonho
Ben Affleck - Hollywoodland - Bastidores da Fama
Jack Nicholson - Os Infiltrados
Brad Pitt - Babel
Mark Wahlberg - Os Infiltrados

Melhor Diretor
Martin Scorsese - Os Infiltrados
Clint Eastwood - A Conquista da Honra
Clint Eastwood - Letters from Iwo Jima
Stephen Frears - The Queen
Alejandro González Iñárritu - Babel

Melhor Roteiro
Peter Morgan - The Queen
Guillermo Arriaga - Babel
Todd Field & Tom Perrotta - Pecados Íntimos
Patrick Marber - Notes on a Scandal
William Monahan - Os Infiltrados

Melhor Trilha Sonora
Alexandre Desplat - The Painted Veil
Clint Mansell - Fonte da Vida
Gustavo Santaolalla - Babel
Carlo Siliotto - Nomad
Hans Zimmer - O Código Da Vinci

Melhor Canção
"The Song of the Heart" - Happy Feet - O Pingüim
"A Father's Way" - À Procura da Felicidade
"Listen" - Dreamgirls - Em Busca de um Sonho
"Never Gonna Break My Faith" - Bobby
"Try Not to Remember" - Home of the Brave

TELEVISÃO

Melhor Série - Drama
Grey's Anatomy
24 Horas
Amor Imenso
Heroes
Lost

Melhor Atriz - Série Dramática
Kyra Sedgwick - The Closer
Patricia Arquette - Medium
Edie Falco - Família Soprano
Evangeline Lilly - Lost
Ellen Pompeo - Grey's Anatomy

Melhor Ator - Série Dramática
Hugh Laurie - House
Patrick Dempsey - Grey's Anatomy
Michael C. Hall - Dexter
Bill Paxton - Amor Imenso
Kiefer Sutherland - 24 Horas

Melhor Série - Humor ou Musical
Ugly Betty
Desperate Housewives
Entourage
The Office
Weeds

Melhor Atriz - Série de Humor ou Musical
America Ferrera - Ugly Betty
Marcia Cross - Desperate Housewives
Felicity Huffman - Desperate Housewives
Julia Louis-Dreyfus - The New Adventures of Old Christine
Mary-Louise Parker - Weeds

Melhor Ator - Série de Humor ou Musical
Alec Baldwin - 30 Rock
Zach Braff - Scrubs
Steve Carell - The Office
Jason Lee - My Name Is Earl
Tony Shalhoub - Monk

Melhor Minissérie ou Telefilme
Elizabeth I
Bleak House
Broken Trail
Mrs. Harris
Prime Suspect: The Final Act

Melhor Atriz - Minissérie ou Telefilme
Helen Mirren - Elizabeth I
Gillian Anderson - Bleak House
Annette Bening - Mrs. Harris
Helen Mirren - Prime Suspect: The Final Act
Sophie Okonedo - Tsunami, The Aftermath

Melhor Ator - Minissérie ou Telefilme
Bill Nighy - Gideon's Daughter
André Braugher - Thief
Robert Duvall - Broken Trail
Michael Ealy - Sleeper Cell: American Terror
Chiwetel Ejiofor - Tsunami, The Aftermath
Ben Kingsley - Mrs. Harris
Matthew Perry - The Ron Clark Story

Melhor Atriz Coadjuvante - Série, Minissérie ou Telefilme
Emily Blunt - Gideon's Daughter
Toni Collette - Tsunami, The Aftermath
Katherine Heigl - Grey's Anatomy
Sarah Paulson - Studio 60 on the Sunset Strip
Elizabeth Perkins - Weeds

Melhor Ator Coadjuvante - Série, Minissérie ou Telefilme
Jeremy Irons - Elizabeth I
Thomas Haden Church - Broken Trail
Justin Kirk - Weeds
Masi Oka - Heroes
Jeremy Piven - Entourage

Filme: Fúria de Titãs - Perseu contra Medusa

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Curta: Jane Lloyd


Clique aqui e assista a esse curta sobre a brevidade da vida.

A vida é como um filme

Daqueles bem dramáticos, derrramadores de rios de lágrimas e românticos. Daqueles filmes com enredo complexo, não muito culto, algo bem simples, mas de tão simples, complexo. Algo cheio de questionamentos, de porquês e com poucas respostas (mas muitos sentimentos).
A vida é como um filme de Chaplin. Em preto e branco, com espertalhões, ditadores, meninas surdas e amorosas, pessoas surdas e não-amorosas. A vida é como um filme de Tarantino: sangrenta, malvada, pevertida, sexual e carnal. E a vida é como um filme de Wood Allen: colorida, fatídica, intensa, generosa, apaixonate, espiritual e justiceira.
Para mim, viver é isso: grande e ambíguas emoções, com muitos questionamentos, poucas soluções mas muita emoção. E viver, para mim, faz parte de compartilhar minhas idéias e ideias com todos. O Parerga é o espaço que todos nós temos para soltar o verbo e dizer: eu vivo, portanto penso.

A versalidade da palavra FUCK

domingo, janeiro 14, 2007

Como nascem os paradigmas

Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, o cientistas lançavam um jato de água fria nos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancadas. Passado mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas. Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos.
A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não mais subia a escada. Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, da surra ao novato. Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o fato. Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído. Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo
nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas. Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: "Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui...". Você não deve perder a oportunidade de passar esta história para seus amigos,para que, vez por outra, questionem-se porque estão batendo...

The Doors - The Severed Garden

Em defesa do padrão - João Ubaldo Ribeiro

Não entendo nada de mulher, claro. Aliás, ninguém entende, nem mesmo Freud, que, num momento de aparente exasperação, perguntou o que as mulheres querem e morreu sem saber. Por sobre isso, mister se faz ressalvar que as considerações abaixo são feitas apenas por um amador, esforçadíssimo mas jamais um craque junto a elas, não contando com a experiência de certos amigos meus (alguns já finados, devem ter morrido disso), muito mais afeitos ao convívio com o afamado Eterno Feminino. Para parco consolo nosso, creio que minha condição é partilhada pela maioria dos cada vez mais perplexos machos da espécie. Somos mais ou menos como torcedores de futebol - temos teorias que julgamos irretorquíveis, mas bem poucos somos bons de bola.

Sou provocado a aventurar-me em terreno tão resvaladiço por causa das notícias, cada vez mais freqüentes, de moças que, na busca de atingir o padrão de beleza vigente, caem vítimas de anorexia nervosa e morrem. Ninguém gosta de saber desses acontecimentos tristes, motivados pela ânsia de identificação com o modelo hegemônico ou, mais patético ainda, pelo afã de ter sucesso numa carreira equivocadamente julgada fácil, mas dificílima e penosíssima, onde um número enorme de jovens se perde todos os anos. Mas, claro, só aparecem as lindas e bem-sucedidas, cuja vida para suas admiradoras é um mar de rosas de festas e glamour. E que padrão de beleza é esse, será mesmo o padrão, digamos, ´natu-ral´, será de fato o preferido por homens e mulheres que não estão comprometidos com o conhecido ´Barbie look´?

Quanto às mulheres, massacradas sem clemência por gostosas irretocáveis (na verdade retocadas pelo Photoshop), que não têm uma manchinha na pele, uma estriazinha escondida, uma celulitezinha e ostentam dotes de uma perfeição na verdade fictícia, não posso falar muito. Mas quanto aos homens posso, porque ouço a opinião de muitos deles e não só saudosistas do modelo violão (em inglês ´hourglass look´, aparência de ampulheta), mas jovens também. Em primeiro lugar, devo afirmar enfaticamente, não por demagogia ou qualquer interesse subalterno, mas em função de uma permanente pesquisa sociológica informal, existe vasto e devotado mercado para as gordinhas e até para as mais gordinhas do que as gordinhas.

Meu querido e finado amigo Zé de Honorina deplorava a ´falta de carne´ da atualidade e a ausência de cintura que parece ser causada pela malhação contemporânea e admirava com sincero fervor estético certas enxúndias bem colocadas, em moças e senhoras que pas-savam pelo largo da Quitanda, onde fazíamos ponto. Eu mesmo tenho uma comadre gordinha, casada há décadas com um marido amantíssimo que a conheceu bem gordinha e fica indignado quando ela perde um quilinho.

Fatores culturais também interferem nisso. Se apreciamos uma calipígia (da bunda bela), as fronteiras com a esteatopígica (da bunda gordinha) são tê-nues e a rapaziada do boteco qualifica de divinal o que as americanas, que, para começo de conversa, não têm bunda nem para pensar em concorrer com a brasileira e, portanto, tendem a desdenhar o que não podem alcançar, consideram gorda. Mulher tem que ter cintura, violão ou ampulheta não interessa, mas é vital a formosa concavidade entre as costelas e as ancas.

Creio mesmo, que, consultada a opinião pública, tanto de homens como de mulheres, mesmo as descinturadas por uma malhação perversa, a maioria concordaria em que mulher tem que ter cintura, faz parte da figura feminina, é clássico, é até constituinte do doce mistério das mulheres. E há muitas gordinhas, sim senhor, mantidas no modelo violão. Está bem, violoncelo, mas com a cintura no lugar. E sei que as descinturadas, conscientemente ou não, também sabem disso, porque noto, entre as muito fotografadas, que elas procuram sempre posar curvando os quadris para um lado, fingindo ainda ter a cintura insensatamente perdida.

Agora, para alegria dos violonófilos e cinturistas, chega evidência científica de que o padrão esquelético ou Barbie nunca esteve com nada, não deverá estar com nada no futuro e só está com alguma coisa no presente devido a interesses de mercado circunstanciais. Diz aqui numa revista científica que o dr. indiano Devendra Singh, da Universidade do Texas, chefiando uma equipe que analisou centenas de milhares de textos literários ocidentais, onde eles refletiam as preferências estéticas de suas épocas, chegou à conclusão de que a cintura, notadamente, a cintura fina, sempre foi elogiadíssima nas mulheres e tida com um elemento básico em sua beleza.

Mais ainda, o dr. Singh estudou detidamente os dois grandes épicos indianos Mahabharata e Ramayana, além de poesia chinesa clássica, e as referências à beleza das mulheres com cintura fina são inúmeras. A tal ponto chegaram as pesquisas do Dr. Singh, também diz aqui na revista, que sua conclusão é de que o cérebro humano é naturalmente programado (wired) para considerar a cintura, principalmente a fina, como parte essencial da beleza feminina.

E, mais ainda, não se trataria de algo arbitrário na evolução da espécie, mas relacionado com a saúde. As que têm cintura- a-ha! -têm mais saúde. Isto sem dúvida abre horizontes quiçá radiosos para muitos de nós, homens ou mulheres, hoje escravizados pelo pensamento único imposto por estetas de meiatigela. Os modernos somos nós, os violonófilos; as antiquadas são as Barbies. Espero que o país se una em torno do restabelecimento do legítimo padrão nacional e que a mulher brasileira, pioneira natural solertemente desviada por uma falsa modernidade colonizada, reassuma sua estatuesca e inimitável majestade de Vênus tropical, das cheinhas às magrinhas, todas com cintura e bunda, o Criador seja louvado.

Fotografia





Clique aqui e conhece o excelente trabalho de Klaus Mitteldorf.

Filme: Corporações - Noam Chomsky



Flexibilidade do Mercado de Mão-de-obra:
Noam chomsky descreve como é vantajoso para as corporações, promover a insegurança no trabalho.

Francisca na direção - Silvia Curiati

Francisca usava óculos Ray-Ban e dirigia um carro vermelho com vidros abertos. Mantinha o som em volumes quase grosseiros aos tímpanos, e estava numa fase Guns'n'Roses. Sweet Child O'Mine em loop na ida e na volta. Alternava, às vezes, com You Could Be Mine. Ambas cantava a plenos pulmões, como se fosse o próprio Axl. Chamava a atenção no trânsito, ponto.

Aurélio atravessou a rua na frente do carro de Francisca, que obedecia a uma placa de Pare. Ela gritava "... but you´re waaaaaaay out of liiiiiine..." e ele olhou. Sentiu que aquela mulher estranha e instigante cruzaria seu caminho mais uma vez. Mas foi uma sensação rápida, nem eu mesma teria percebido se não fosse uma narradora onisciente.

Aurélio seguiu pela calçada do lado direito e Francisca dobrou à direita. Seguiram paralelos, ela de carro vermelho e ele a pé. Logo adiante, ela virou novamente à direita para entrar no estacionamento. É verdade que estava numa velocidade um tanto elevada para alguém que subiria numa calçada, mas Guns era contagioso "...yoooooou should be.....".

Foi quando suas vidas se cruzaram novamente, como Aurélio previu. A sua, no entanto, abreviada por mais uma destas fatalidades. Um encontro casual, nada mais.

Filme: Waking Life - O Existencialismo

sábado, janeiro 13, 2007

Eu sei, mas não devia - Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma.

Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.

A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Arte de espremer cravos e espinhas - Xico Sá

Aqui nos pegamos, numa sessão de nostalgia com testosterona, para lembrar os tempos em que as mulheres espremiam nossas espinhas e tiravam todos os cravos do nariz e arredores - inclusive aqueles na ponta da napa, motivo suficiente para gritaria e espirros tantos da nossa parte.
Reclamávamos nesse momento, éramos chamados de frouxos. Inevitáveis comparações com a dor do parto e outras dores femininas ecoavam no ar nessa hora solene. E quando elas escolhiam justo a hora do futebol, o ataque do time deo coração...
Hoje, quando estão praticamente extintas as mulheres da brigada contra cravos e espinhas (conheço apenas um exemplar, uma descendente de Iracema, ali das subidas da gruta de Ubajara, que habita hoje a margem esquerda do Capibaribe, no Recife) , sentimos a perda, uma vez que nunca dominamos muito bem essa arte. Nem mesmo na adolescência, quando nos transformamos em verdadeiros e monstruosos Mr. Hydes - culpa, óbvio, do glorioso vício solitário, que além das espinhas ainda nos pregava pêlos na palma da mão.
Como não acreditamos nos milagrosos creminhos usados pelos metrossexuais - esse novo tipo de homem moderno gerado da costela de David Beckhan - preferimos incentivar o resgate da prática feminina de tirar cravos e espinhas, essa bela e útil mania praticamente extinta nos dias que correm.
Vez por outra ainda damos a sorte de avistar, em alguma parada de ônibus, uma voluntariosa senhora ou senhorita a espremer o rosto de um camarada. Sempre uma bela cena produzida pelos suburbanos corações.
Não tem a menor graça, nesse mundo tão imbecilmente profissionalizado, a limpeza de pele dos salões de beleza. Seu rosto ali entregue a amistosas funcionárias sem nenhuma intimidade, mulheres que nunca ouviram os nossos roncos de noite na cama. É o tipo de serviço que exige histórico de intimidades. Tal arte carece de pelo menos um mês de namoro ou acasalamento. Não é tarefa para qualquer uma. É tão delicado quanto tirar a roupa pela primeira vez na frente de outrem - e, pensando bem, uma reveladora prova de devoção.
A menos que seja uma perversa incatalogável, uma gazela não escarafuncha suas crateras à toa. Quando ela posiciona aqueles dois indicadores sobre a sua bíblica face, parece aceitar a convivência harmoniosa até com as nossas mais indignas impurezas. É provação. Coisa boa demais para a leseira das belas tardes de domingo.

link: Diario do Nordeste

quarta-feira, janeiro 03, 2007

O melhor de Jim Carrey

Vera De-Milo:
Jim Carrey e Will Ferrel:
Fire Marshall Bill:
Fire Marshall Bill II:

O poder de um decote - Silvia Curiati

Ela nunca usava decote, pensou ao entrar no restaurante. Tinha belas pernas, mas ele queria ver a sua saboneteira. Bem que hoje ela poderia abrir uma exceção. Não há nada mais sensual que saboneteiras salientes.

Sentou-se e pediu um uísque, duas pedras de gelo, enquanto esperava por sua companhia.

Onze minutos depois ela entra, apressada mas elegante, como se realmente estivesse preocupada com o atraso mas sem nenhuma intenção de desculpar-se.

Olha rapidamente ao redor e o identifica. Caminha em sua direção, fazendo movimento de tirar os braços do casaco pesado que a protegia do vento frio. Faz uma pausa no gesto para arrumar o cabelo e desnuda seu corpo de maneira prática, que não poderia ser mais sensual aos olhos dele.

O colo estava ali, dourado, sem adornos que atrapalhassem a visão. O pescoço parecia mais longo e os cabelos ganharam um charme especial, contrastando com a cor do colo coberto por uma peça azul royal que ele nem se preocupou em ver se era blusa ou vestido.

Não escondeu o sorriso quando ela se sentou. Linda, você está linda. Ela agradeceu com o olhar.

O papo foi longo, lento, cheio de pausas. Cenário ideal para uma contemplação.

Ela tinha uma pequena espinha rosada querendo aparecer no seio direito. Bem pequena, bem discreta. Poderia ser uma picada de um filhote de pernilongo, mas ele preferiu assumir ser uma espinha. Uma pequena mácula na perfeição que era aquele colo.

A noite terminou horas mais tarde que o imaginado. Copos de licor e xícaras de café iam e vinham, ora cheios, ora vazios. Despediram-se com um abraço e um carinhoso beijo no rosto como tinha de ser. Ele já a conhecia o suficiente para saber que, se queria conquistá-la, deveria começar pelo intelecto e aos poucos, com segurança e sem pressa, retornar ao plano físico.

Antes de ir, no entanto, olhou novamente para a espinha, desta vez sem procurar disfarçar. Ela sentiu-se desejada, mas ele não percebeu.
Ele passou a noite em claro, pensando em revê-la logo, antes que a espinha fosse curada sem deixar rastros.

Rebulicação: Ilha das flores

Um ácido e divertido retrato da mecânica da sociedade de consumo. Acompanhando a trajetória de um simples tomate, desde a plantação até ser jogado fora, o curta escancara o processo de geração de riqueza e as desigualdades que surgem no meio do caminho. Documentário de Jorge Furtado.

PARTE I :
PARTE II:

terça-feira, dezembro 19, 2006

A inocência do amor - Silvia Curiati

As onze badaladas surdas cortando o breu da noite foram o sinal para que ele saísse sorrateiro, deixando um rastro de adrenalina que fez Milu levantar a cabeça e farejar as intenções de seu dono.

Era a melhor hora do dia para boiar. Brisa fria, água fria, terra fria. O conjunto dava-lhe a sensação de que sua cabeça e seu coração esfriavam um pouco também.

Tirou a roupa e mergulhou abrindo os olhos, como se buscasse estrelas tocando o chão. Subiu de volta e apontou o umbigo para a lua, fechando os olhos para não cair à tentação de fazer um pedido a uma estrela cadente que insistisse em atravessar o seu caminho. Sabia o que pediria, e também sabia que era impossível sua realização. Profilaxia: enquanto não conseguisse pensar em outra coisa, não olharia mais para o céu.

A água não o abraçava porque ninguém mais o fazia. Ela o carregava como mãos desconhecidas, se aquele fosse o corpo de um herói.

Ele lembrou-se de quando era criança pedindo uma menininha da escola em namoro, esperando sua resposta por uma semana. Queria reviver aquela sensação de tranqüilidade e desprendimento. Esperou por sete dias sem cogitar sequer uma vez se a menina aceitaria ou não. Tudo era mais importante: o campeonato de futebol de salão, a prova de ciências, a ida ao Playcenter no sábado. Difícil resgatar a inocência do amor infantil.

Podia jurar que a água ao redor de seu corpo esquentava, quase formando bolhas. Pensou, sem querer, no rosto desta outra menina que o assombrava há meses. Abriu os olhos e empurrou seu corpo para o fundo d'água, pulmões vazios, tentando eliminar toda a oxigenação que tornasse possível a formação de uma imagem nítida em sua mente. Foram 6 minutos.

Nadou até a margem, saiu e caminhou nu, sem secar-se, plantando-se debaixo de uma árvore o resto da noite. Esgotar o pensamento lhe daria dores na cabeça e o libertaria. Doeu, tinha razão.

Voltou à casa seis horas depois, agarrando com firmeza as rédeas de um cavalo que havia desaparecido. Calçou um par de pantufas e foi tomar um copo de leite, brindando consigo sua nova vida.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

"Parerga e Paraleponema" no "Diário do Nordeste"


Já na sua terceira aparição na mídia escrita, o "Parerga e Pareleponema" foi indicado mais uma vez como um blog de divercidade. No site do jornal Diário do Nordeste, na coluna "Pop Up" podemos conferir o pequeno texto em que o nome do blog é definido como "estranhíssimo". Para os que viram a matéria e apareceram por aqui para me agradecer ou parabenizar, obrigado. Aos curiosos, o nome do blog vem do título de um livro de um autor muito citado por aqui, Arthur Schopenhauer, filósofo alemão (1788-1860), e significa "discurssões e refurtações". Como me proponho a discurssão e as n refurtações já demosntradas na história desse blog, é explicado seu sentido. Meu objetivo é único, ter "mais uma forma de expressão, sem pretensões e nada mais...". Tudo ou nada disso!

Republicação: Dance Monkeys, Dance

Música: Final Fantasy Piano

terça-feira, dezembro 12, 2006

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Rave: Um ritual tribal contemporâneo - Carolina Borges

Rituais tribais existem desde os primórdios da humanidade. As sociedades tribais arcaicas utilizavam os rituais como forma sagrada de conexão com a natureza e seus deuses. Através de danças coletivas, música repetitiva, ervas para abertura da percepção, entre outros ritos, os povos tribais celebravam e se conectavam com os aspectos transcendentais da vida. A vida pulsando em Gaia.

Quando o ponto de conexão e sociabilidade entre os seres humanos se dá através da ressonância de afetos, da similaridade do modo de experimentar e vivenciar a vida, estamos diante de uma tribo; na medida em que a intenção da convivência é genuína e não imposta por alguma lei.

A história da civilização, a formação dos estados, a industrialização, e todas as leis e instituições hierárquicas – religiosa, política, econômica - aos poucos foram eliminando os aspectos tribais das relações, através da domesticação, catequização, e imposição de valores e verdades a fim de beneficiar as instâncias de poder e comando.

De selvagens, tribais e guerreiros, os habitantes de Gaia transformaram-se em um grande e maciço rebanho de ovelhas. Vidas foram sugadas através das leis, instituições e a imposição de um tempo artificial, a fim de homogeneizar as vidas do rebanho e conseqüentemente facilitar o controle do poder.

A natureza foi perdendo sua soberania, os próprios humanos que antes à veneravam, começaram a destruí-la e explorá-la. Os rituais deixaram de ser tribais e pagãos, dando origem a celebrações religiosas institucionalizadas de caráter transcendental, na qual a desvalorização do corpo e da vida telúrica, transformaram-se em realidade. O rebanho agora não celebra a vida, e sim, a “vida além da vida”. Com o fim dos rituais e celebrações tribais, deu-se início a era das celebrações mórbidas conduzidas por ideais acéticos.

Final do século XX, a humanidade chegando ao seu limite de artificialidade - através do desenvolvimento tecnológico, da ausência de relação com a natureza de Gaia, do rebanho/homem sendo conduzido por valores competitivos e progressistas - dá um “salto quântico em ondas espirais”, com o surgimento no final da década de 80 na Inglaterra das primeiras raves.

Com grande semelhança às cerimônias indígenas religiosas dos índios norte americanos Pow wows, tem-se início o retorno do sentido tribal e transcendental através da música eletrônica e a sua estrutura repetitiva – remetendo aos sons tribais produzidos durantes os rituais – o DJ como um xamã, conduzindo o êxtase e a vibração. A volta do paganismo e seu aspecto hedonista, na medida em que as relações entre os freqüentadores estão além de controles e comandos institucionais.

O ciberespaço como superfície de afeto e trocas de informações entre os ravers, Gaia pulsando com os fluxos de informações e conexões de seus habitantes.

Este ritual contemporâneo evidencia a transformação sem precedentes que vivenciamos, pois se trata de um ritual tribal planetário gerado somente e através da tecnologia, possuindo características idênticas em qualquer região de Gaia. Cidades nômades são formadas - em lugares onde há predominância da natureza - por alguns dias e vidas compartilhadas durante este ritual. Estamos diante de um forma de zona autônoma temporária (TAZ), evidenciando o aspecto anárquico e caótico que as raves apresentam, por tratarem de encontros e trocas de afetos sem controles e leis.

Eis a tecnologia proporcionando um retorno ao arcaico. Habitantes de Gaia retornam às suas condições de selvagens, assim como a natureza recupera seu aspecto soberano. Embora em lugares naturais e selvagens, as raves possuem a artificialidade em sua essência, visto que é a tecnologia o elemento que viabiliza este ritual.

É através do ciberespaço que as trocas de informações, como detalhes de horas e locais são realizados. A música é eletrônica, produzida através de softwares, as imagens projetadas são criadas também através de softwares, a importância da estética do corpo, a substancia psycoativa (MDMA) para estímulo e abertura da percepção é sintética e produzida em laboratórios, tudo isso gerando um ritual pós-moderno de alguns dias, onde os habitantes de Gaia dançam e celebram coletivamente. O retorno do arcaico, na medida em que os principais aspectos dos rituais tribais ficam evidenciados.

Consumo excessivo de substancias psycoativas, apropriação da rave como produto de consumo e alienação, coexistem com o movimento refletindo a atual sociedade que habita Gaia. Assim como os rituais tribais arcaicos refletiam cada tribo, a rave sendo o ritual tribal contemporâneo vai refletir a atual sociedade planetária. Impossível falar da atual sociedade sem falar de excesso de consumismo.

Rave como levante, zona autônoma temporária de sociabilidade humana, linha de fuga, subversão, anarquismo caótico, nomadismo, tribo, coletividade, festejo, celebração, paganismo, xamanismo, desterritorialidade, ritual. A era pós-moderna de Gaia e o surgimento do neo tribalismo.

"A TAZ envolve um crescimento do manso para o selvagem, um retorno que é, igualmente, um passo a frente. Uma lógica do caos, um projeto de elevados ordenamentos de consciência ou simplicidade de vida que se aproxima em um surfar nas ondas dianteiras do caos, de um complexo dinamismo. A TAZ é uma arte de vida em contínuo surgimento, selvagem, mas gentil...”


A última lágrima do desespero humano



“Deus é uma lágrima de amor derramada o mais profundo segredo sobre a miséria humana” - Feuerbach

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Aos que vierem depois de nós - Bertolt Brecht

Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
[(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.


Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

Um simples almoço de domingo - Silvia Curiati

Foi comprar o almoço de domingo com seu pai, e voltou diferente.
A mãe queria uma saladinha leve, a irmã um x-maionese. Anita, como sempre, pediria uma porção de fritas enquanto jogava palitinho com seu pai, esperando os pratos ficarem prontos.

Saíram de casa às 13:10, caminharam por 3 minutos em direção à lanchonete e entraram. Pediram a comida, esperaram precisamente 17 minutos, pagaram e saíram do local, com os pacotes cheirando gostoso.

Foi quando olharam para o céu e viram uma coisa estranha movendo-se por entre nuvens escuras demais. Pararam e ficaram admirando o OVNI, tentando eliminar as duas últimas letras desta sigla misteriosa. "Deve ser um helicóptero", "não, eles não voam assim... um balão, talvez?" "hum, acho difícil."

Chegaram em casa às 17:34, como se nada houvesse acontecido. A mãe e a irmã estavam desesperadas, de fome e susto. O pai e Anita juravam não ter demorado mais que os 23 minutos de sempre, talvez 25 contando com a parada para admirar o céu.

O fato é que a comida estava fria, a salada um tanto murcha.
E Anita até hoje apita ao passar em qualquer detector de metais, mesmo que esteja nua.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Se Fossemos Infinitos - Bertolt Brecht



Se Fossemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.

quarta-feira, novembro 29, 2006

O quê é religião? - Rubem Alves

"Vivemos em uma guerra permanente com nós mesmo. Somos incapazes de ser felizes. Não somos o que desejamos ser. O que desejamos ser jaz oprimido... E é justamente aí, diria Feuerbach, que se encontra a essência do que somos. Somos o nosso desejo, desejo que não pode florescer. Mas, o pior de tudo, como Freud observa, é que nem sequer temos consciência do que desejamos. Não sabemos o que queremos ser. Não sabemos o que desejamos porque o desejo, reprimido, foi forçado a habitar as regiões do esquecimento. Tornou-se inconsciente.
Acontece que o desejo é indestrutível. E lá, do esquecimento em que se encontra, ele não cessa de enviar mensagens cifradas - para que seus captores não as entendam. E elas aparecem como sintomas neuróticos, com os lapsos e equívocos, como sonhos... Os sonhos são a voz do desejo. Aqui nasce a religião, como mensagem do desejo, expressão de nostalgia, esperaça de prazer..."

domingo, novembro 26, 2006

Sabemos demais - Roberto Damatta

Dedico esta meditação aos que baniram do seu mundo o “eu não sei” e o conseqüente reconhecimento da ignorância que faz o mundo avançar. Impressiona-me o fato de jamais ter ouvido de nenhum homem público um trivial e humano “isso eu não sei”. Penso que os caras devem ser muito preparados, mas daí vem a perplexidade: se eles sabem tudo, se conhecem demais todos os problemas, por que então nada é resolvido?
Olhando a movimentação dos poderosos confirmados ou recém-inaugurados pelas urnas, esses que ontem sabiam tudo do mundo e do Brasil, estou convencido de que um dos maiores paradoxos brasileiros é o saber demais. É ter um conhecimento quase imoral de todos os problemas e, não obstante toda essa sabedoria, não resolver p@##a nenhuma. Talvez esse “saber demais” seja uma maldição pós-moderna: o saber tudo nos leva a não fazer nada.
De onde vem esse “saber demais”? Quais as suas marcas? A primeira é a sua associação a uma visão de mundo avessa, alérgica e distanciada do resultado ou da prática. Antigamente chamava-se “bacharelesco” esse tipo de conhecimento que passava pelas lombadas dos livros e pelos nomes dos autores, deixando de lado suas aplicações, contextos, resultados e, sobretudo, limites. O floreado sendo mais básico do que o argumento e a crítica. Suas implicações práticas jamais eram vistas, pois não seria - como ainda não é - de bom tom cobrar pragmatismo dos sábios, sobretudo quando eles acumulam sapiência com o poder de nomear, conceder ou exonerar, por exemplo.
A segunda característica desse “saber tudo” é a idéia de que a realidade pode ser conhecida à exaustão. Que os fatos da natureza e da vida social podem ser esgotados na sua lógica, dinâmica e essência. Que existem realmente teorias que respondem a todas as questões, dirimindo todas as dúvidas, porque as únicas questões possíveis são aquelas formuladas pelos sábios que conhecemos, lemos e admiramos. Pior que isso, que existem pessoas que “sabem tudo” e, por isso, são as mais adequadas para nos governar.
Há uma correlação entre “saber demais” e elites pequenas, densas hiperconscientes, ignorantes e sovinas. Em toda sociedade hierarquizada, o saber é mais um recurso na manutenção dos seus círculos de poder. Para “subir” é preciso saber o caminho das pedras. Deve-se conhecer as pessoas certas ou estar no partido adequado para ser reconhecido. Não é fácil entrar no clube dos afortunados que rompem o duro cerco do anonimato e chegam ao “nirvana social”. O patamar dos que não pensam mais em usar nenhuma versão do “Você sabe com quem está falando?”.
Sendo parte da casta das “unanimidades nacionais”, esses brâmanes formam, como ocorre entre os Bruzundangas de Lima Barreto, o círculo dos que “sabem tudo”. Dos que tudo podem dizer e, melhor que isso, dos que nada precisam fazer ou prestar contas. Nesses sistemas, o brilho engloba a integridade.
O exato oposto acontece nos sistemas igualitários, nos quais cada segmento (ou, se quiserem, classe social) tem o seu saber. Tem sua visão de mundo que está, como as pessoas, em conflito e disputa com as outras. Cansei de ouvir, nos Estados Unidos e na velha Inglaterra, a expressão “o seu ponto contra o meu”, significando a sua perspectiva, sua visada das coisas, seu conhecimento do problema.
Essas são as sociedades com professores e sábios, mas sem sabichões. Sistemas nos quais o conhecimento disso ou daquilo - do crescimento econômico, da segurança pública, da educação, da imprensa, dos livros, etc. - passa por muitos, democrática e igualitariamente. Essas são as sociedades com muitos recomeços, experiências e revoluções. Aqui temos muitos pontos de vista, o que conduz a uma visão crítica dessa crença numa sabedoria essencial, típica de sistemas em que educação significa primordialmente pose, falar difícil e boas maneiras, não a ausência de ignorância.
Credos mínimos estruturam essas culturas. Por exemplo: o “First come, first serve” (quem primeiro chega, primeiro é atendido) é um dos princípios fundamentais do igualitarismo moderno que ainda não precisou de “regulamentação” por nenhum jurista de fala enrolada e de linguagem criptográfica, com o fito de limitá-lo às elites.
O problema das sociedades dos que sabem demais é a sua aversão às aplicações práticas; o famoso teste de comer o pudim que eventualmente limita as teorias. O resultado, estamos todos fartos de testemunhar, é que sabemos tudo o que deve ser feito, mas as soluções - despoluir a baía, acabar com uma polícia parada, lidar com menos preconceito contra o nosso racismo, desregular onde é preciso para regular firmemente onde é necessário e, mais que isso, aplicar, decidir, resolver, prender e punir - são teorias. E em política, a teoria pura é quase sempre desesperança e utopia.
Tudo se passa como se o nosso fado fosse o de saber tudo e não fazer nada; ao passo que onde não se sabe experimenta-se, subordinando o saber ao teste, pois somente assim a teoria se transforma num meio de resolver questões. Mas como compensação para toda essa sabedoria.

link: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=383604

Filosofia - Chico Buarque

O mundo me condena
E ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber
Se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome.

Mas a filosofia
Hoje me auxilia
A viver indiferente assim.
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Para ninguém zombar de mim.

Não me incomodo
Que você me diga
Que a sociedade
É minha inimiga.
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba
Muito embora vagabundo.

Quanto a você
Da aristocracia
Que tem dinheiro
Mas não compra alegria
Há de viver eternamente
Sendo escrava desta gente
Que cultiva hipocrisia.

terça-feira, novembro 14, 2006

Klav Kalash

Receta en español del Klav Kalash:

Duración: 30 min
Para 4 personas (seguro que nadie lo prueba)

Ingredientes:
600 gr de carne de carnero
600 gr de carne de cordero
4 tomates
3 pimientos
media cebolla grande (o 1 pequeña pero seguiremos la transcripción literal)
agua
aceite
sal
pimienta
otros condimentos al gusto de cada uno
palo (no bol, palo, palo)
salsa de cangrejo de mar (para beber le va bien el jugo de cangrejo, no de montaña)

Preparación:
Cortar la carne en pequeños tacos, los pimientos y la cebolla en pequeñas tiras y machacar los tomates.
Poner (o hacer, es que ese verbo tiene dos significados) todos esos ingredientes en una olla, sazonarlo con especies fuertes y añadir algo de agua. Entonces mezclar y presionar la masa hasta formar una gran bola (de beisbol, de tenis o de lo que te de la gana).
Esta bola se cubrirá de aceite y se asará en una parrilla o en una sartén (hay quien puede construirse su propio horno de piedra si lo prefiere)
Cuando la bola esté en su punto (al dente), fijarla sobre un palo. Pringar (así sale en el diccionario) con la salsa de cangrejo. Au, bon profit.



segunda-feira, novembro 13, 2006

300




Sobre Esparta


"Este é meu escudo.
Em combate, eu o levo à minha frente,
mas ele não é só meu.
Protege o meu irmão à minha esquerda.
Protege minha cidade.
Nunca deixarei meu irmão
fora de sua proteção
nem minha cidade sem seu resguardo.
Morrerei com meu escudo em minha frente
enfrentando o inimigo"

domingo, novembro 12, 2006

Charlatanismo: A Parapsicologia - Alejandro J. Borgo

A parapsicologia é uma disciplina que se enquadra dentro das pseudociências. Tem a duvidosa honra de ser a única pseudociência experimental, embora – a rigor – seja difícil chamar de experimento um teste de parapsicologia. Os fenômenos parapsicológicos ou fenômenos “psi” foram arbitrariamente divididos em:
– Telepatia, ou captação do conteúdo mental de outra pessoa.
– Clarividência, ou captação extra-sensorial de um objeto ou acontecimento objetivo.
– Precognição, ou captação extra-sensorial de acontecimentos futuros.
– Psicocinese, ou influência da mente sobre a matéria.
Os três primeiros pertencem à mal chamada percepção extra-sensorial, e o último engloba o grupo de fenômenos “físicos”. A parapsicologia concebe a mente como uma entidade separada do corpo e, em alguns casos, os parapsicólogos afirmam que os fenômenos não pertencem ao âmbito do mental, pondo a “psi” em um nível que estaria “mais além do psíquico ou mental”. Os fenômenos psi seriam:
a) independentes do espaço e do tempo;
b) erráticos, ou seja, não se pode saber quando vão apresentar-se;
c) involuntários; e
d) inconscientes.
Vejamos:
a) Ao serem independentes do espaço e do tempo, violam várias leis físicas, mas os parapsicólogos – em vez de duvidar da existência de um fenômeno tão peculiar – sustentam que é preciso reformar toda a física para que psi possa ser explicada (quando nem sequer está demonstrado que exista).
b) Com a desculpa da erraticidade, os parapsicólogos podem explicar seus fracassos dizendo que “como é errático, o fenômeno desta vez não se apresentou”. Quando obtém um resultado positivo dizem “desta vez se apresentou”. Isto é equivalente a afirmar que um remédio para a dor de cabeça deu resultado depois que a dor passou. Se a dor não passa, então se recorre à explicação seguinte: algo inibiu o efeito do remédio, a concentração dos componentes não era a correta, o paciente não estava predisposto, etc, etc.
c) Estes pretensos fenômenos não podem ser manejados à vontade, de maneira que não se pode propor a produção de um fenômeno a bel-prazer, em qualquer momento ou lugar. Esta vulgar desculpa é também freqüentemente usada pelos supostos “mentalistas”, “videntes”, etc., quando a colher não se dobra ou as cartas não se acertam.
d) Outra característica – dizem os parapsicólogos – é que os fenômenos psi são inconscientes. Não se sabe quando nem como se experimenta a telepatia ou a clarividência. Às vezes pode-se perceber algo extra-sensorialmente e “transformá-lo” em uma sensação de tristeza, alegria, dor, sem dar-se conta de que se trata de um fenômeno psi genuíno. Com o mesmo rigor podemos dizer que temos um dragão verde dentro de nossa cabeça, só que o dragão dá um jeito para desmaterializar-se cada vez que nos tiram uma radiografia ou se “transforma” em uma sensação de calor, ansiedade, etc, etc.
Como vemos, a parapsicologia ignora a física, a biologia, a psicologia científica e todo e qualquer conhecimento que provenha da ciência. Não possui uma teoria que explique satisfatoriamente como um ente imaterial (psi) pode interagir com um sistema material (o cérebro). Tentou-se correlacionar os fenômenos psi com diversos aspectos: a personalidade, a atitude crédula ou incrédula, os estados alterados da consciência, a idade, o sexo, e se utilizou uma grande gama de instrumentos para levar a cabo investigações delineadas para pôr à prova a hipótese da existência de psi.
Fica ridículo começar a correlacionar a psi com qualquer característica ou habilidade se ainda não se provou sequer sua própria existência. Por isso dizemos que a parapsicologia não faz experimentos propriamente ditos. Primeiro deveria provar que a variável crucial psi existe. De igual maneira poder-se-ia propor a existência dos duendes plutonianos, os quais são invisíveis, erráticos e independentes do espaço e do tempo e começar a correlacionar sua presença com o estado de ânimo das pessoas, a personalidade, etc., sem corroborar primeiro que realmente existam.
Pelo que se vê, a parapsicologia está longe de transformar-se em uma ciência, apesar de que os parapsicólogos falam de “parapsicologia científica” ou “nova ciência”. Mais de 100 anos de pesquisas não conseguiram provar um só fenômeno psi. Foram feitos testes com animais, com plantas, com material subatômico, com cartas, desenhos, estados alterados de consciência, drogas, etc. Foram publicados experimentos assombrosos, mas quando se tentou repeti-los, o resultado foi o fracasso, com as conseqüentes desculpas pseudoexplicativas. As mais prestigiosas revistas dedicadas à parapsicologia deveriam publicar os milhares e milhares de testes que produziram resultados negativos para a hipótese psi.
Tendo em conta as objeções precedentes, devemos agregar a fraude, seja ela por parte dos investigadores ou pelos sujeitos “dotados” ou “sensitivos” que fazem trapaça durante os experimentos. Vários ilusionistas peritos têm recomendado que um mágico experimentado se encontre presente quando se faz uma investigação com sujeitos como o famoso Uri Geller, tão propensos à fraude. E o panorama desalentador se completa mencionando os delineamentos experimentais defeituosos, as análises estatísticas errôneas e outras falhas do gênero.
Antes de afirmar que psi existe, os parapsicólogos deveriam resolver certos aspectos cruciais e ainda pendentes de definição. Perguntas sem resposta:
– O que é “energia psíquica”?
– O que é psi?
– Por que psi é errática?
– Como sabemos que psi é inconsciente?
– Se psi não responde às leis naturais, a que leis responde?
– Se psi é errática e involuntária, por que há pessoas que parecem exercê-la à vontade em seus “consultórios profissionais”?
Fazendo um exame crítico e objetivo verificamos que não há provas nem sequer indícios a favor de psi, ou seja, da percepção extra-sensorial e da psicocinese. Para cúmulo, os parapsicólogos inventam novos termos para tratar de explicar o acaso. Exemplo: o que acontece quando uma pessoa acerta menos do que o esperado pelo acaso? Há percepção extra-sensorial negativa? Não. De maneira nenhuma. Preferem chamá-la “psi-missing” (perda de psi). Os mais audazes propõem que a pessoa nega inconscientemente o fenômeno e produz resultados inferiores ao esperado pelo acaso. Este é um procedimento típico da pseudociência.
Resumindo:
– Não há base experimental.
– Os resultados positivos são irrepetíveis.
– Tem sido detectada fraude em proporção alarmante.
– Tem se observado delineamentos experimentais defeituosos.
– Tem se descoberto análises estatísticas errôneas.
– Há uma incômoda maioria de resultados negativos (sem publicar).
– Há mais de 100 anos de pesquisas.
– As definições são vagas.
– Não existem hipóteses nem teorias explicativas.

Será preciso adicionar algo mais para percebermos que a parapsicologia é uma pseudociência?

A Batalha das Termópilas - Jacques-Louis David

terça-feira, novembro 07, 2006

Filme: Camisa de Força

Após recuperar-se de um tiro na cabeça, Jack Starks (Adrien Brody), um veterano da Guerra do Golfo, retorna à cidade natal sofrendo de amnésia. Quando é acusado de ter assassinado um policial, é recolhido num hospital psiquiátrico, onde um médico, Dr. Becker (Kris Kristofferson), o submete a um controverso tratamento, no qual é injetado no paciente drogas experimentais. Starcks é imobilizado numa camisa de força e trancafiado, por períodos longos, em uma gaveta para cadáveres, no sótão de um necrotério. A mente de Starks, drogada e desorientada, o transporta ao futuro, onde ele conhece Jackie (Keira Knightley), e descobre que está fadado a morrer em quatro dias. Juntos, eles buscam uma maneira de livrá-lo de seu trágico destino.


(clique aqui e assista ao trailer)



Os peixinhos de Felipe - Silvia Curiati

Felipe era um menino do bem, muito gente-boa. Ganhou um aquário quando completou 9 anos de idade. Enorme, daqueles que enchem os olhos, cheios de peixinhos coloridos de nomes estranhamente científicos.
Se apaixonou tanto pelo presente que todos os dias, durante aquele ano, passava as tardes numa loja de peixes estudando nadadeiras e movimentos, nomes e formas.

O dono do lugar, vendo isso, lhe ofereceu um emprego. Seria mais proveitoso do que tê-lo ali, à toa, zanzando pelos aquários como uma alma penada. E já que era um menino tão simpático, gente-boa, não haveria mal nenhum.

Felipe, então, trabalhava meio período. Ganhava em espécie. Um peixinho por mês.

Começou a achar que saía em desvantagem, já que um único peixinho não passava do preço de um saquinho de balas Chita. Ponderando a reclamação do funcionário-mirim, o patrão olhou Felipe nos olhos e, entregando-lhe um saco com um peixe grande quase imóvel, disse que pela sua dedicação, aquele mês ganharia um peixe raro grávido. Assim mesmo, peixe raro grávido. Era único na loja.

Não pareceu uma boa negociação ao menino, que entendeu ter de esperar mais um tempo para enxergar o tamanho real de seu salário.
Dias depois foi surpreendido com remuneração equivalente a 8 meses de trabalho. Com sua precoce visão para os negócios, pediu demissão e armou uma barraquinha em frente à sua casa, onde vendeu todos os 8 filhotes a um preço um pouco superior ao da concorrência, já que eram de espécie rara e não havia outros iguais na vizinhança. Claro, todos compravam de Felipe, não só por sua lábia de vendedor mas por ele ser um cara legal mesmo.

Com o dinheiro, comprou outros peixes grávidos com pinta de raros e montou um pequeno negócio, que lhe rendeu um lucro interessante em poucos meses.

Anos depois, fundou o primeiro Aquário de sua cidade, e para que a fórmula de sucesso fosse mantida, começou a provocar cruzamento de peixes com as mais diversas espécies animais, assim teria peixes raros e grávidos garantindo a longevidade do negócio. Foi preso acusado de práticas ilícitas de mutação gênica e terminou seus dias numa cadeia, perto do porto, cheirando a peixe, apesar de continuar sendo do bem e muito, muito gente-boa.

"Seamos realistas y hagamos lo imposible"


Che

segunda-feira, novembro 06, 2006

A Náusea - Jean-Paul Sartre,

"Por exemplo, essa espécie de ruminação dolorosa: existo - sou eu que a alimento. Eu. O corpo vive sozinho, uma vez que começou a viver. Mas o pensamento, sou eu que o continuo, que o desenvolvo. Existo. Penso que existo. Oh! Que serpentina comprida esse sentimento de existir - e eu a desenrolo muito lentamente... Se pudesse me impedir de pensar! Tenho, consigo: parece-me que minha cabeça se enche de fumaça, e eis que tudo recomeça: ‘Fumaça... não pensar... Não quero pensar... Penso que não quero pensar... Não devo pensar que não quero pensar. Porque isso também é um pensamento’. Será que não termina nunca?
Meu pensamento sou eu: eis por que posso parar. Existo porque penso... e não posso me impedir de pensar. Nesse exato momento - é terrível - se existo é porque tenho horror a existir. Sou eu, sou eu que me extraio do nada a que aspiro: o ódio, a repugnância de existir são outras tantas maneiras de me fazer existir, de me embrenhar na existência. Os pensamentos nascem por trás de mim como uma vertigem, sinto-os nascer atrás de minha cabeça... Se cedo, virão para frente, aqui entre meus olhos - e sempre cedo, o pensamento cresce, cresce e fica imenso, me enchendo por inteiro e renovando minha existência."


Exposição: !Mirabolante Miró





Vista por mais de 190 mil pesoas em Porto Alegre, onde fica o centro cultural do Santander Banespa, a exposição “!Mirabolante Miró”, em cartaz em Fortaleza, no Espaço Cultural Unifor, é uma boa dica para quem aprecia artes plásticas. Promovida pela Fundação Edson Queiroz / Universidade de Fortaleza, a mostra reúne 200 obras do artista catalão Joan Miró, um dos principais artistas do século XX, até 10 de dezembro. De terça a domingo, das 10h às 20h. Grátis

Os Sete Enforcados - Leônidas Andreiev

"'Isso é a morte? Que morte?' - pensa ela docemente. Se de todos os países viessem para a sua cela os sábios, os filósofos, os carrascos, se pussesem diante dela os livros, escapelos, machados e forcas, e começassem a gritar que a morte não existe, que o homem morre e não existe imortalidade, todos eles se espantariam. Como não existe imortalidade, quando ela já era imortal? De que outra imortalidade, de que outra morte se poderia falar, quando ela já está morta e igualmente imortal, viva dentro da morte, como se fosse viva dentro da vida? Se pussesem dentro de sua cela, enchendo-a com sua podridão, um ataúde com o seu próprio cadáver putrefato, e dissessem: 'Olha! És tu!', ela olharia, respondendo: 'Não! Não sou eu.'"

quarta-feira, novembro 01, 2006

Reflexões de um motorista - Silvia Curiati

Eu caminhava a passos firmes em direção ao estacionamento. Já tinha andando uma quadra e meia, ainda faltava a segunda metade, cruzar uma avenida de duas mãos e seguir por mais um quarteirão.

Não era tarde, umas oito, oito e meia da noite. Claro, esta informação depende de um referencial. Levando-se em conta que eu deveria ter deixado o hotel às cinco, no máximo com vinte minutos de atraso, era bastante tarde, sim.

Meus olhos ainda estavam embaçados, um pouco pelo astigmatismo incurável e avesso aos óculos de grau, e muito pelas emoções que insistiam em brotar, descontroladas, no estado líquido.

Assim mesmo, sei bem o que vi: ele vinha de costas. Caminhava em marcha-ré, na minha direção. Veloz, decidido. Só não juro que havia um par de olhos vermelhos em sua nuca porque posso estar cometendo um grande engano - o semáforo da avenida obrigava os carros a parar, e de novo, as emoções...

O fato é que ele veio. E as luzinhas vermelhas (existentes ou não) me confirmavam que vinha de costas. Esbarrou em mim intencionalmente e com força, dizendo, bastante incomodado com o fato de eu estar no meio do seu caminho, que eu deveria pensar em continuar no sentido oposto, já que a vida segue em frente, nem de lado, nem de costas.